Historiador João José Reis usa trajetória de ex-escravo africano que virou adivinho e curandeiro para mostrar complexidade do quadro social baiano no século 19

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

“O historiador vive um pouco de adivinhar”, escreve João José Reis, 56, em seu mais recente trabalho, “Domingos Sodré -Um Sacerdote Africano”, que chega às livrarias na próxima segunda-feira.
Neste caso especificamente, a afirmação se aplica como uma luva. Não apenas porque a documentação sobre a escravidão no Brasil tem deficiências graves, mas porque o personagem que o historiador escolheu estudar trata-se, nada menos, de um “feiticeiro” e adivinho africano que, em meados do século 19, tornou-se uma figura notável da sociedade de Salvador.
E é por meio da trajetória deste homem, que assistiu ao auge do tráfico de escravos e da exploração do açúcar na região, aos levantes de cativos e à transformação da cidade por conta do aumento do número de negros livres que Reis analisa a complexidade daquele fervilhante quadro social.
Conseqüentemente, convida a uma reflexão sobre a escravidão que, embora não abandone a oposição entre senhores e escravos, leva em conta os papéis que negros libertos passaram a exercer ao mesmo tempo em que o medo e a repressão por parte da população branca com relação a eles aumentava.
“Faço história social do candomblé, ou seja, discuto sua interação com a sociedade. E uso Domingos como meu guia nessa missão”, explicou Reis, em entrevista à Folha.
Domingos Sodré nasceu por volta do ano de 1797, em Onim, a Lagos da atual Nigéria. Veio jovem ao Brasil, onde foi escravo de um engenho no Recôncavo. Em 1836, foi alforriado. Aos poucos, começou a ganhar fama de adivinhador e feiticeiro.
Era consultado por negros e brancos, mas foi preso por fazer trabalhos para “amansar” senhores. Comprou, ele mesmo, escravos, batizou gente e casou-se na Igreja.
Morreu com estimados 90 anos, em 1887, um ano antes da abolição da escravidão.
Se aos olhos de hoje Domingos parece um personagem do passado cheio de contradições, o que Reis faz é partir de seu retrato para mostrar como aquele momento de rearranjo de poder teve participação de diversos tipos de personagens, negros ou brancos, que exerciam vários papéis.

Pacto e negociação
A prática de feitiçaria e as reuniões relacionadas ao candomblé eram em geral reprimidas pela polícia e condenadas pela imprensa. Porém, havia muitos policiais que também usavam esses serviços. De algum modo, tornou-se um espaço de convivência e negociação entre negros e brancos, ainda que carregado de muita tensão.
O livro começa descrevendo a prisão de Domingos em julho de 1862. Sob a acusação de promover eventos relacionados ao candomblé e de reunir em sua casa objetos roubados por escravos das casas de seus senhores, o africano foi para a cadeia. Reis, então, começa a analisar como as grandes linhas do candomblé foram desenhadas na Bahia no período em que Domingos Sodré ali viveu.
O estudo segue a tônica de outros trabalhos do autor, professor da Universidade Federal da Bahia, que buscam mostrar que uma espécie de negociação entre escravos e senhores existiu concretamente e que, ainda que não suavizasse a exploração de um modo geral, garantia alguns ganhos para os explorados. Essa era a idéia essencial por trás de “Negociação e Conflito” (Companhia das Letras), escrito com Eduardo Silva.
“O conceito de negociação é usado para representar a possibilidade de barganha entre ambos.” O pesquisador usa a imagem de um chicote sempre presente, mas que não “governa” sozinho. “Uma coisa é certa: se havia situações cotidianas para negociar, o objetivo maior era sempre conseguir a alforria.”
O atual trabalho mostra como, depois de liberto, o ex-cativo tinha de continuar a se haver com a sociedade dos livres, “o que incluía o ex-senhor, mas também o político branco, o policial mestiço e por aí vai”.
Esse teria sido o caso de Domingos, que “conseguiu libertar-se de um senhor poderoso, virou ele próprio senhor de escravos e conseguiu circular com desembaraço no meio dos brancos, e com muita autoridade no meio dos negros.”
Assim, o caso mostra que, apesar de pequena, havia uma espécie de elite africana influente em Salvador. Com o devido cuidado, Reis mostra o escravo como agente histórico, mas sem, com isso, minimizar os horrores da exploração.

Fonte: Folha de São Paulo

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