Crítica: “Desvario”

Israelense opta por narrativa sinuosa para juntar tramas de relações conturbadas

MICHEL LAUB
ESPECIAL PARA A FOLHA

N uma época em que ação, velocidade e clareza são vistas como qualidades literárias, não deixa de ser arriscada a aposta do escritor israelense David Grossman em “Desvario”. O romance é o oposto disso: duas histórias independentes, narradas de maneira sinuosa, com personagens que demoram para ser identificados e situações que só ficam claras quando o leitor já ameaça se perder entre suas ambigüidades e sutilezas. A primeira delas é sobre um homem que, sabendo do caso extraconjugal da mulher, resolve contar tudo para a cunhada durante uma viagem de carro. A segunda fala de uma professora de ioga e de suas relações conturbadas com a filha e um aluno de 16 anos. Felizmente, o esforço para juntar as pontas de ambas compensa. E, num certo sentido, é até essencial para a compreensão da proposta do livro. Porque Grossman não parece tê-lo escrito apenas para reafirmar o velho tema da complexidade das relações afetivas -no caso, entre homem e mulher, mulher e mulher, mãe e filha, pai e filho. Mais que isso, e forçando um pouco a barra crítica, talvez se possa dizer que a sua intenção seja dar ao leitor uma experiência de subjetividade radical, fazendo-o mergulhar na mesma espécie de incompreensão do mundo que marca os personagens durante boa parte de suas vidas.

Narradores
“Desvario” usa narradores em primeira e terceira pessoa, com pouca diferença entre as duas formas, porque o ponto de vista é sempre estrito, filtrado e distorcido pela intensidade dos desejos, das emoções, dos traumas, da proximidade da morte. É só fragmentariamente, portanto, num processo lento e doloroso como o de um “insight”, que começamos a enxergar os abismos que rondam essas criaturas. Na maioria das vezes, eles aparecem em frases dúbias, que disfarçam sua tristeza, por exemplo, sob uma camada aparente de salvação: “Não importa homem, não importa mulher, não importa o que lhe disseram, do que riram ou zombaram, não importa como seu pai o chama, com que nomes, e por que ele bate em você, e por que afastaram o Kôbi de você, eles não entendem nada, eles estão só do lado de fora, no meio do barulho, não podem ouvir o que você ouve, e você ouve maravilhosamente bem.” Em outros trechos, é uma estocada precisa, em meio à camada de indícios insinuados em gestos e falas, que revela toda uma dimensão trágica individual: “Tentei mexer um pouco com cinema, e jornalismo, e minhas limitações ficaram claras”, diz a filha da professora de ioga. “E ficou claro sobretudo que aquela infância teve um preço (não existe nem fome grátis), e que nesse meio-tempo o mundo se enchera de outras crianças que não haviam desperdiçado suas energias apenas para sobreviver.” Grossman escreve com uma consciência notável de seu ofício, dando ao livro um sentido de totalidade e sabedoria que, embora o tom inevitavelmente melancólico do desfecho, não pode ser confundido com pessimismo ou desolação. De certa maneira, essa é mais uma de suas surpresas. E mais uma das razões para enfrentar a beleza difícil de suas 322 páginas.

MICHEL LAUB é autor de “Longe da Água” e “O Segundo Tempo”

DESVARIO
Autor: David Grossman
Tradução: George Schlesinger
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 51 (322 págs.)
Avaliação: bom

TRECHOS

O homem não vê aí nada de supérfluo, ao contrário, abre o peito para captar tudo o que possa estar oculto nessas duas palavras, aqui estou, aqui estou toda para você, aqui estou como sou de verdade, aqui estou para você tirar minha casca, e a fisionomia dele diz sim, e o corpo dele diz sim, e pela milésima vez ele fica surpreso que também quando ela diz coisas simples e óbvias, como faz com freqüência, sempre são acompanhadas de uma sensação de surpresa

Assim pensou, assim sonhou e fantasiou, e foi assim que se atormentou depois nos anos seguintes, anos de aridez, anos de saudade, num mundo onde talvez não houvesse outro garoto como aquele. E, quando abriu os olhos, descobriu que o hotel já fervia com a agitação cotidiana, e que os trabalhadores dos armazéns do norte já tinham partido havia tempo, e ficou deitada de costas ainda por longos minutos, muito quieta, chorando intimamente por algo raro e transparente que passou na frente dela, ali pairou por alguns instantes, e desapareceu

Os dedos dela foram imediatamente puxados pelo suspiro, espalhando-o ao longo de todo o corpo com toques rápidos, como se ela quisesse tocar outra vez para ele a nova melodia […]. Por um momento, ela voltou a ver na sua frente os chuveiros imundos do internato .

Extraído de “Desvario”, de David Grossman

Fonte: Folha de São Paulo Online

Anúncios