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“A Menina de Cá”, de Carlos Nascimento Silva
LEIA TRECHO DE “A MENINA DE CÁ”
Mistérios em torno de um casal em crise, os poderes femininos e o homem diante da insuperável frustração de um amor perdido. Tudo isso e algo mais compõem o enredo do livro “A Menina de Cá”, de Carlos Nascimento Silva (lançamento da editora Agir). São 20 narrativas curtas que remontam o início de carreira do autor mineiro, 72 anos, dois Prêmios Jabuti no currículo. Mais conhecido por seus romances, Nascimento Silva iniciou-se como escritor com contos – agora, pela primeira vez, reunidos em livro.

Leia trecho de “A Menina de Cá”

Ironia e um apetite especial para as ações que não se explicam com racionalidade parecem pontos comuns entre os textos. Mas se existe uma temática geral entre os enredos, essa é a mulher. É o poder do feminino, seja numa relação de casal, seja em comunhão com a natureza, que o autor aborda em suas histórias, algumas abertamente influenciadas pela obra de outro mineiro ilustre, João Guimarães Rosa.

As aproximações de “A Menina de Cá” com a obra Roseana começam pelo título do livro, parafraseado de “A Menina de Lá”, conto publicado em “Primeiras Estórias” (de 1962). No texto de Guimarães Rosa, a menina Maria, conhecida como Nhinhinha, primeiro é dada como tola para logo se revelar milagreira. Já a menina de Nascimento Silva, no conto que dá nome ao livro, é Nhanhã – uma garotinha esquisita, que se difere dos irmãos pelos hábitos estranhos que cultiva como o de se divertir deitando-se no solo, “levantando o vestidinho até a cintura e recebendo o calor da terra na barriga, nas coxas”. Seu dom não é propriamente dos milagres, e sim o de estabelecer uma relação de comunhão com a natureza. O final surpreendente do conto deixa até o mais yuppie com uma pontinha de vontade de ser telúrico.

Outros quatro dos contos de Carlos Nascimento Silva são oferecidos ao autor de “Grande Sertão: Veredas”. Além de uma apaixonada dedicatória que antecede os textos, coisa de fã mesmo, “À moda de Guimarães”, “Depois, além…”, “Coisas” e “Confiteos” recuperam e modernizam elementos muito próprios de Guimarães Rosa. Um deles é sonoridade. Na mesma linha do mestre, Nascimento Silva tece sua narrativa como uma música, em que não apenas a forma, mas principalmente o som das palavras se torna essencial. Um convite à leitura em voz alta, como uma poesia.

Outro ponto de diálogo entre os dois autores é o apreço pelo primitivo como tema. Em “A Menina de Cá”, o homem é repetidas vezes apresentado como vítima da sua própria agressividade. Age como se não houvesse alternativa a não ser aceitar-se como um ser brutal e capaz de atrocidades motivadas pelo instinto.

Destaque ainda para a trilogia “Beléleu”, “O Outro” e “Queijo Suíço”. Nesses contos, um mesmo casal atravessa crises matrimoniais cercado de mistérios. O desaparecimento de objetos de uso doméstico de dentro de casa, sem pistas de quem ou o que pode ser a causa, ou o eco de uma voz masculina que interfere nos diálogos íntimos são estopins para crises devastadoras. Diante do inexplicável, o relacionamento antes duradouro parece frágil como papel. E não resiste a falta de lógica.

O autor
Carlos Nascimento Silva nasceu em Varginha, cidade do interior de Minas Gerais. Figura entre os nomes da chamada atual literatura brasileira que valem a pena ter na estante. Sua estréia se deu como romancista em 1995, com o lançamento de “A Casa da Palma”. Vendeu mais de 10 mil exemplares – um número relevante em se tratando de uma estréia no mercado nacional. Com esse livro, ele recebeu o prêmio da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). “A Casa de Palma” ganhou as prateleiras da Alemanha, traduzido com o título “Das Palmenhaus”.

Os títulos mais conhecidos de Nascimento Silva, no entanto, são “Cabra-cega” (1999) e “Desengano” (2007), dois ganhadores do Prêmio Jabuti. Em “Cabra-cega”, o autor apresenta a vida de quatro personagens, com histórias paralelas e aparentemente independentes, passadas no Brasil e nos Estados Unidos, e suas experiências de vida nas últimas quatro décadas do milênio. Nascimento Silva utiliza o enredo para questionar o processo de produção literária.

Já em “Desengano”, o autor se vale do realismo. No Rio de Janeiro dos anos 1950, uma tragédia familiar se anuncia quando Júlia, uma viúva balzaquiana, seduz Alberto, 17 anos, amigo do seu filho. Pedofilia, relações sadomasoquistas e incestos compõem a temática nua e crua do último romance lançado pelo autor.


“A MENINA DE CÁ”
Autor: Carlos Nascimento Silva
Editora: Agir
Preço: R$ 34,90

“CABRA-CEGA”
Autor: Carlos Nascimento Silva
Editora: Relume Dumará
Preço: R$ 36

“DESENGANO”
Autor: Carlos Nascimento Silva
Editora: Agir
Preço: R$ 30

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