HOTEL ATLÂNTICO (João Gilberto Noll)

Um homem sem nome – “Amor, me chame de Amor, Verbo Encarnado”(p. 14) – perambula a esmo, do Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul. Alguma coisa com os Rios? O autor não nos permite saber. É assim, com uma escrita crua e retilínea, que João Gilberto Noll nos oferece este “Hotel Atlântico”. Deduzido, o texto fala de um homem fluido, escorregadio, como um regaço que se enche ou esvazia conforme as estações do ano. Noll, contudo, não permite variações temáticas, tergiversações sobre sua sinfonia.

Antes, sempre ordenado, ele nos apresenta este personagem em deambulação labiríntica. Ele está procurando alguém? Fugindo? Será ´apenas´ um louco à solta? Oras, louco todos nós somos… e estamos soltos também! As pistas são dadas como blefes num jogo de baralho. Ficamos sempre no encalço deste animal enigmático, que faz amor como quem defeca, que come sem saber sabor, que fulgura em cada instante como único, pessoal e catártico.

João Gilberto Noll aqui recupera os negativos(instantâneos) da fugacidade. O anônimo que entra sem bagagem num hotel, faz sexo com a recepcionista, depois pega um táxi para a rodoviária dizendo que vai para Minas e toma um ônibus para Santa Catarina; convenhamos, não oferece um roteiro para uma história que se quer contagiante. Mas daí o escritor extrai seu sumo seco, como aquele que carpina em terra embriagada de sol. Recuperemos então um trecho curto, para melhor entendermos:

“Subi um degrau da escada rolante. A escada que descia vinha mais apinhada de gente. Entre a escada que descia e a que subia havia uma larga escada de concreto. Por ela os apressados subiam ou desciam pulando degraus.

Naquelas vias por onde se subia ou descia pareciam todos muito imersos naquilo que estavam fazendo. Ter percebido isso me relaxou. Eu também conseguiria: viajar, tomar um ônibus, chegar em algum lugar.” (p. 20)

Daí percebemos o que nos sequestra no texto: estas fotos impressas nas folhas de papel, são também um pouco de nós; nossos fantasmas batendo à porta da  memória, do insconsciente, do nosso complexo diário. Nós também, às vezes(ou sempre), perambulamos sem saber para onde queremos ir. Para complementar essa intersecção com o acaso, somos então informados no meio da história que o personagem é ator, só quando o reconhecem numa cidadezinha interiorana.

O fato de Noll trazer à tona a informação de que esse eremita social, uma persona desconexa, é um ator(quer dizer, encarna outros, vários, diversos “personagens”), torna-o mais risível diante das incompletudes do espaço cênico que nunca consegue preencher. Voluntariamente ou não, o autor realizou, neste Hotel Atlântico a plenitude da catarse metafísica. Terá um ator tão ruim assim, mas tão ruim mesmo(ou muito, muito bom) que acabe por transferir sua pequenez existencial para aquele que lhe empresta o corpo?

Escobar Franelas
Anúncios