“No Divã com Adão” reúne HQs curtas que brincam com situações cotidianas e “psicologia barata”

PEDRO CIRNE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Todo ser humano é sujeito a traumas, culpas e ressentimentos. Pode fazer terapia para lidar com essas situações… Ou pode fazer humor. Ou ambos, caso do gaúcho Adão Iturrusgarai, que está lançando “No Divã com Adão”. O livro reúne dezenas de HQs curtas que têm em comum não um personagem, mas, sim, uma espécie de equação. Por exemplo: “trocar o nome do amigo: um mês de análise; trocar o nome da namorada: dois meses de análise; trocar o nome da esposa na lua-de-mel: cem anos de análise”.
Iturrusgarai, que publica na Ilustrada a tira “Mundo Monstro”, é mais conhecido por seus personagens Aline, a bela ruiva com dois namorados, e os caubóis gays Rocky e Hudson. Esse livro, sem personagens fixos, reflete uma nova fase em sua carreira. “Personagens se esgotam, de uma certa maneira”, diz Iturrusgarai. “E essa sacada [transformar contratempos em meses de análise] me divertiu. Era para ser usada em duas ou três tiras, mas o assunto não acaba.” A nova fase pode ser reflexo de mudanças em sua vida pessoal.
Após morar em grandes cidades (Porto Alegre, Paris, São Paulo e Rio), Iturrusgarai mudou-se, há poucos meses, com a mulher e a recém-nascida filha, para Gaiman, um povoado de 6.000 habitantes na Patagônia argentina. O livro pode parecer uma sátira à psicanálise, mas não é. O próprio autor já se submeteu a três anos de terapia -e é seu ex-psicanalista quem assina o prefácio. “É uma brincadeira com o psicologismo, com a psicologia barata”, explica Iturrusgarai.
O leitor encontra, nessas tiras, situações que podem acontecer a qualquer um: ser expulso da sala de aula, ter uma desilusão amorosa, descobrir que um dia morremos, ser demitido. Algumas são exageradas, para realçar o humor. “É sempre mais fácil rir da desgraça”, diz o quadrinista. “Não sei como nosso cérebro funciona, mas desde pequenos rimos, por exemplo, se vemos alguém tropeçar na rua.” “No Divã com Adão” traz um humor simples e direto, mas também pode resultar em reflexão. “Meu livro é uma piada, mas talvez seja um recado sobre a tentativa das pessoas de simplificar tudo”, pondera. “A análise não resolve seus problemas, mas mostra de onde eles vieram.
Vale a pena pagar?” Sobre se a análise “funciona”, Iturrusgarai diz que acha que sim, “mas depende do encontro paciente-analista”. E completa, bem-humorado: “Mas nunca devemos esquecer da máxima: pau que nasce torto não se endireita”.


NO DIVÃ COM ADÃO
Autor: Adão Iturrusgarai
Editora: Planeta
Quanto: R$ 34,90 (160 págs.)

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