Catarse da vergonha
MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

“RESISTÊNCIA”, DIÁRIO da francesa Agnès Humbert, que viveu na clandestinidade durante a ocupação nazista, traz a seguinte questão: por que certas experiências exigem novas formas de expressão, a ponto de criarem um novo gênero ou subgênero literário?
Num célebre ensaio intitulado “Semiótica dos Conceitos de Vergonha e Medo”, Iuri Lotman descreveu a dinâmica do nosso comportamento pela alternância entre dois impulsos.
O medo definiria a reação do indivíduo a um elemento externo, a grupos cujas normas lhe são estranhas e ameaçadoras. Já a vergonha definiria a relação interna de um grupo no qual a violação das regras compartilhadas desencadeia o temor da exclusão. Lotman não quis com isso esgotar a gama das relações intersubjetivas.
O fato, porém, é que em situações extremas esse binômio passa a definir a cultura de uma época, a ponto de criar formas de simbolizar tais sentimentos.
É o caso do terror e da culpa que marcaram a experiência de quem -como Agnès Humbert- viveu a Segunda Guerra Mundial.
O horror da destruição total, representada pelos campos de extermínio, acabou criando um tipo de relato conhecido como “literatura de testemunho”, como as memórias de Primo Levi e Elie Wiesel. Na França, país até hoje constrangido pelo passado “colaboracionista”, surgiu outra tradição narrativa: os relatos da Resistência, daquela minoria que se rebelou e sobreviveu para fazer a catarse coletiva.
“Resistência” se insere nesse subgênero, em que as convenções do registro confessional se invertem: em vez de mostrar a vergonha daquele que confessa sentimentos que o apartam da coletividade, o relato do resistente tenta provar que ele possui uma sanidade exemplar, oculta na vergonha coletiva.
Historiadora de arte em Paris, Agnès Humbert começou a redigir seus diários quando a invasão alemã era iminente, interrompendo-os em 1941, ao ser presa por envolvimento no grupo resistente liderado por Boris Vildé. Após a guerra, retomou o trabalho de reconstituição que resultou no livro, cujo título brasileiro remete ao jornal que ela editava na clandestinidade.
O terror do cárcere (incluindo a comovente cena em que seus companheiros escutam impávidos a sentença de morte) ocupa boa parte do livro. Mas os trechos mais significativos correspondem aos meses que precedem a prisão e ao momento em que, após a Libertação, ela se empenha na caça aos nazistas.
Pois, enquanto luta contra os carrascos, ela antevê o embate com outro inimigo, mais insidioso: os “camaleões” morais que, passado o pesadelo, continuam morando na casa ao lado.

RESISTÊNCIA
Autora: Agnès Humbert
Tradução: Regina Lyra
Editora: Nova Fronteira
Quanto: R$ 39,90 (344 págs.)
Avaliação: bom

 

Fonte

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