Lançado este ano na Bienal Internacional do Rio de Janeiro, o livro “1808 – Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil“, pela Editora Planeta, o livro do jornalista Laurentino Gomes, está em primeiro colocado na lista dos mais vendidos na Livraria Saraiva e na Livraria Cultura, no quesito não-ficção, desta semana.

Como fui presenteado justamente com este livro no Natal, achei por bem fazer uma breve crítica do livro, que ainda estou terminando de ler.

Bem, de início deixo claro que minhas ponderações serão feitas a partir de um duplo olhar: falarei como historiador e, na medida do possível, como curioso leitor.

Primeiramente, vejamos quem é o autor, bem como o lugar social de onde fala. Na internet, achei uma seguinte descrição: “Laurentino Gomes trabalha na Editora Abril há 20 anos, 15 dos quais foi repórter da revista Veja. Ao examinar a trajetória da revista Contigo!, ele começou a se interessar por marketing. Isso porque ela começou como uma revista de foto novela, passou a tratar de celebridades, em seguida se tornou popularesca e cobria a ficção, as novelas, e, em 2004, foi reposicionada, voltou a tratar de celebridades e se tornou mais elitizada, destinada agora às classes A e B. Esse é um exemplo de que o produto deve acompanhar o mercado e os consumidores e se adaptar de acordo com eles.”

Passemos ao livro. Como historiador, posso dizer que ele não traz nenhuma contribuição às pesquisas historiográficas, e que não passa de um engôdo de venda, em outras palavras, é uma publicação mercenária que visa apenas ganhar dinheiro. Como bom marketeiro, o autor inicia o livro dando ares da importância à sua obra – se é que podemos chamar assim… – como a “adaptação” em uma linguagem acessível.

Mais uma jogada de marketing, o autor propaga a idéia errada de que a linguagem dos historiadores é uma linguagem inacessível, o que reforça, por sua vez, o potencial de vendas de livros de história escritos por jornalistas (o que tem sido prática corrente nos últimos anos – e que não tenho muitas coisas contra, desde que se faça um trabalho sério, como o fez o jornalista Elio Gaspari, com sua série de obras em 4 ricos volumes sobre a Ditadura Militar no Brasil).

O livro não passa de uma compilação de outros livros de melhor gabarito e especializados sobre o assunto, sobretudo da obra de Manuel de Oliveira Lima (D.João VI no Brasil – de 1908) sendo telegráfico quase que na totalidade de suas páginas (ao menos até onde li; mas, não espero nenhuma surpresa até o final).

Do ponto de vista do conteúdo da obra, posso dizer que, afora o tom descritivo do autor, está implícito na escrita os traços de um autor moralista que busca transpor erroneamente para dois séculos atrás suas impressões particulares sobre comportamentos típicos do tempo e do lugar em questão. Na página 158, ele diz: “Sob o calor único dos trópicos, imperavam a preguiça e a falta de elegância no modo de se vestir e se comportar.” Ora, essa foi a impressão do austríaco Emanuel Pohl, médico e botânico, que integrou a Missão Astríaca no Brasil, e que Laurentino reproduz sem o menor cuidado, mantendo a velha visão eurocêntrica da História do Brasil.

Vamos do início. Já na primeira frase do livro, o autor ergue a sua própria forca, quando diz: “Este livro é o resultado de dez anos de investigação jornalística.” Um livro de História, de acordo com o rigor que me foi ensinado por ilustres e bons professores que tive na universidade, deve trazer em si contribuições documentais colhidas a partir de métodos rigorosos, e não de pesquisas jornalísticas (não falo do uso de jornais como fontes, essa é outra história, e os jornais e periódicos trazem informações indispensáveis às pesquisas).

Um dos absurdos cometidos pelo autor é a utilização do Wikipédia como fonte de pesquisa. Mesmo admitindo a insegurança de tal fonte, Laurentino Gomes acredita que com cautela, esta enciclopédia on-line pode ser útil. Não acredito nisso. A Wikipédia, eu penso, é um manual do que costumo chamar de “Geração Google”. Uma geração onde todos sabem nada sobre tudo. Em uma pesquisa doméstica é até salutar o uso do Wikipédia, mas não em um livro de História do Brasil.

Outras fontes eletrônicas usadas pelo autor são de confiança bem maior, como o serviço de audiolivros em inglês, o http://www.audible.com, que fornece em seus arquivos mais de 20.000 livros, bem como o uso de podcasts no site do iTunes, que oferece muitas aulas do curso de graduação da Universidade de Berkeley, na Califórnia.

Mas, o Wikipédia é imperdoável como fonte histórica. Vou apenas citar um exemplo: Wikipédia informa que o presidente Prudente de Morais teria morrido no dia 13 de dezembro de 1902. Mas, a edição do Jornal do Brasil do dia 03 de dezembro de 1902 traz em sua manchete o informe da morte do presidente. Essa é apenas uma demonstração mínima dos erros a que estão sujeitos os que confiarem na Wikipédia como fonte de pesquisa.

O rigor das fontes não está entre os méritos do livro em questão, somando a isso o fato de não trazer nenhuma contribuição para o desenvolvimento das pesquisas em História, além da ausência de boas análises. Em uma palavra, é um péssimo livro, se visto do ponto de vista historiográfico, e não vale a pena ser lido.

Por outro lado, se nos esforçamos a um olhar de vista grossa para essas ponderações (e outras, que nem fiz), pode-se até dizer que é um livro interessante. Possui excelente acabamento editorial, com boas ilustrações e linguagem simples.

Desta forma, digo que vale a pena ser lido, no sentido estrito de que não é perda total de tempo, e que existe um certo rigor, se diminuirmos alguns anacronismos e confusões entre nomes de grupos políticos e seus interesses. Muitos destes grupos e interesses, o autor fala livremente, quando, em verdade, tais idéias ou pensamentos são próprios de outras épocas da Monarquia, como por exemplo, o pensamento Abolicionista, que não deve ser confundido com Republicanismo e nem com Federalismo.

Para os que não estão preocupados com o rigor metódico das obras sérias e acadêmicas, artigos ou ensaios, etc., estes poderão ler o livro sem maiores preocupações, e engordar a conta bancária do autor.

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