Adriana Calcanhotto descobre a prosa ao narrar seu surto psicótico em Portugal; mas a canção, ela diz, “ainda resolve melhor”

Livro sobre o episódio, “Saga Lusa”, em que a escrita serviu como antídoto para efeitos medicamentosos, sai até o fim deste mês

 

A cantora Adriana Calcanhotto, que lança neste mês o livro “Saga Lusa”, sobre surto em Portugal, no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

“Surto psicótico induzido por medicação. Não há o que fazer. Você tem que esperar passar”, disse o médico.
Durante uma turnê em Portugal, em maio deste ano, a cantora Adriana Calcanhotto recebeu o diagnóstico, por telefone, de seu clínico no Brasil.
Tinha saído do país já com uma gripe forte, e avalia que a cortisona que usa há 12 anos para um problema glandular -sozinha ou interagindo com os outros medicamentos para o mal-estar- tenha disparado um período de delírio e pânico, em que viveu as piores sensações de sua vida e teve medo de não voltar a controlar as próprias emoções e pensamentos.
“Estava na cara que não tinha antídoto”, ela diz. Químico, ao menos. Mesmo antes do “surto”, a cantora já havia feito algo “que não era exatamente” do seu “estilo”. Em resposta a um amigo, escrevera um e-mail longuíssimo, em que falava sobre suas primeiras impressões de Lisboa. “Eu sou uma pessoa educada. Não escrevo e-mails massudos daquele jeito, nem para os amigos íntimos.”
Quando as cores de tons inéditos que davam medo, o delírio de estar fora do corpo, a “coisa” que teimava em levar sua mente para as piores lembranças, medos e tristezas se manifestaram, ela continuou a escrever, sem parar.
O resultado, uma narrativa desses dias em Portugal, entre a viagem de ida e a de volta -do seu país e de si mesma-, recebe de Calcanhotto e de seu psiquiatra o crédito de ter servido para salvá-la. Virou livro -mais “auto-ajuda” impossível, brinca a cantora. “Saga Lusa” será publicado até o fim deste mês pela estreante editora Cobogó, criada pela cineasta e fotógrafa Isabel Diegues e pelo arquiteto e crítico Ricardo Sardenberg.
“Eu consegui me manter separada da “coisa”, escrevendo. Assim eu me sentia com menos medo. Não toquei violão, por exemplo, que estava no quarto o tempo todo”, ela diz.
“Escrever foi a única coisa que restou. Porque, quanto mais eu pensasse no futuro -quanto tempo vai ser, se vai passar-, com a pressão de cancelar entrevistas e shows, a escrita era o que me mantinha no presente, era o que eu intuí que seria a coisa mais sábia a fazer, para não ficar pensando naquilo”, conta Calcanhotto.
O fato de estar em Portugal também contou, segundo ela. O país “encarna” sua paixão pela literatura, sobretudo pela poesia, e não há como viajar para lá sem se dar conta da língua, das diferenças de linguagem entre os dois países, sem dar atenção para as palavras e seus efeitos.
O “ambiente”, portanto, também pode ter contribuído para a vontade de escrever, afirma a cantora.

Retorno à prosa
Entre a ida e a vinda, uma coisa, ao menos, mudou. Calcanhotto diz que havia deixado a prosa de lado, em favor da leitura de poesia, ainda nova, na adolescência.
Tinha a sensação de perda de tempo (em que poderia descobrir novos poetas e versos) nas páginas de romances.
Fora redação de colégio, nem se arriscava na prosa -e diz que não sentia necessidade nem desejo de escrever. Depois de sua “Saga Lusa”, voltou a ler romances e contos, e tem escrito crônicas.
Numa passagem do livro, de certa forma exorcizando a vaidade e a ambição, Calcanhotto imagina abandonar a profissão de cantora -afinal, menciona, está aí a crise do disco, das gravadoras etc.- e se tornar escritora profissional. Mais: membro da Academia Brasileira de Letras. Mas não só: presidente da ABL.
“Minhas ambições com essa obra são de vulto”, ela brinca.
“Vulto não, que ultimamente me dá medo. Minhas ambições são de porte. E, por falar em porte, vou começar hoje mesmo uma dieta. Pra caber em um fardão bordado a ouro, que pedirei à menina [e estilista] Gilda Midani pra me ajudar a incrementar, deixar mais largadão, confortável.”
A publicação desse trabalho de “auto-ajuda”, de toda forma, tem menos a ver com a vaidade de escrever do que com a conclusão de seu tratamento “literário”. “Não teria uma sensação de total sobrevivência se eu colocasse esse livro na gaveta. É publicando que eu sobrevivo de fato”, diz.
Apesar da redescoberta da prosa -e da possibilidade de uma futura carreira como escritora-, Calcanhotto segue fiel à canção. No camarim, pouco antes do seu primeiro show após a crise, lembra-se de uma música que, segundo ela, também foi importante para “resolver” aquela situação.
“Lembrei que se diz que para cada sentimento humano, para cada mais sutil sensação, para qualquer situação possível nesta vida, já há uma música correspondente no cancioneiro brasileiro”, escreve. Cantou em seguida, para a platéia da cidade do Porto, “Meu Mundo e Nada Mais”, de Guilherme Arantes. Para quem havia passado cinco dias sem dormir e temia perder o controle das próprias idéias e emoções, parecia fazer sentido dizer “eu queria tanto estar no escuro do meu quarto” e “daria tudo por meu mundo e nada mais”.
Livro e canção tentam, portanto, fazer a mesma coisa: dar conta de uma sensação, de um estado de espírito, resolvê-lo, botar ordem no mundo e fazer a vida seguir adiante. Fica inevitável a comparação.
“As canções resolvem melhor, resolvem tudo melhor; a canção é superior”, diz Calcanhotto. “Acho que eu vou perder a minha vaga na Academia, com essa frase.”


SAGA LUSA
Autor: Adriana Calcanhotto
Editora: Cobogó
Quanto: preço a definir (168 págs.)

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