Alexei Ivanovich é um homem jovem que vive a plenitude de dias sem objetivos maiores. Está agregado à uma família, onde faz as vezes de professor dos filhos do general viúvo, um personagem de onde dá-se a partida para o desenrolar dos conflitos. Antônia Vassilievna, a Babuschka, a salvação finaceira do general, é uma anciã que todos julgavam caquética e esperavam sua morte para que o general, de posse da herança, saldasse suas dívidas e desposasse de sua amada, uma mulher dúbia, de passado duvidoso, ex-prostituta francesa.

Dostoiévski

Enquanto isso, Alexei Ivanovich vai nutrindo paixão avassaladora por Paulina Alexandrovna, enteada do general. Esse amor não é correspondido e Paulina o despreza, dando-lhe atenção somente quando resolve que Alexei irá jogar no cassino para ela, pois estão todos sem dinheiro, hospedados em requintado hotel à espera da morte da velha senhora.

O conflito começa nessa primeira parte quando a velha, que só fala usando de impropérios, aparece na cidade com seus criados, altiva, ainda que numa cadeira de rodas, ridicularizando a todos que esperavam por sua morte para se apropriar de sua fortuna. Ferina e loquaz, resolve, juntamente com Alexei conhecer o cassino que fica a uns quinhentos metros do hotel.

A velha Babuschka se rende à sedução das roletas e diante dos olhares aterrorizados dos pretendentes à sua riqueza, perde todo seu dinheiro, restando-lhe apenas as propriedades. Aqui, Dostoiévski descreve com riqueza de detalhes a sordidez da avareza humana, criando ironicamente essa personagem anciã, de força moral incrivelmente superior à de todos os outros personagens.

Em meio a esta convulsão moral, Alexei Ivanovich ainda tem que se debater em angústias por um amor que não é correspondido, até que…

À essa altura, Dostoiévski provoca, surpreendentemente, uma reviravolta na vida de todos. O próprio Alexei Ivanovich se perde entre as páginas do livro, tentando, ele próprio, enquanto personagem narrador, buscar, deprimido e desesperado, o fio da meada, embolado subtamente pelo próprio escritor.

O leitor entra definitivamente nessa aventura porque já não está mais ao lado de fora como simples leitor. Agora ele já é parceiro de Alexei Ivanovich e, solidário, o acompanha na trilha do desdobramento dos desfechos, sempre inseguro porque nosso jogador está subitamente sem memória!

Alucinante cenário do que era a trajetória de pessoas que dependiam da sorte do outro, da morte de uma altiva senhora para resolverem suas agoniadas vidas atribuladas em dívidas e miséria, pondo seu status em jogo — sem trocadilho.

O Jogador - Dostoievski

Alexei parece ter desistido de seu grande amor, ou antes, ainda procura explicar para o leitor o que de fato aconteceu naquelas jogatinas do cassino e no meio de tantos enredos obscuros, o leitor quer saber como terminou seu caso de paixão doentia por Paulina Alexandrovna. Que foi feito dos personagens? Quem herdou o quê? E a senhora desbocada, onde foi parar? Morreu? E por que Alexei declara de repente para o leitor que seu amor acabou estupidamente como se jamais tivesse existido?

Neste livro, tem-se a oportunidade de ouvir uma autobiografia narrada pelo próprio Dostoiévski, oportunidade única de se estar por horas a fio ao lado do gênio. Do próprio Fiódor, podendo enxergar sua alma, seu mais íntimo olhar descritivo da condição humana. Assim justifica-se ser O Jogador o maior livro, a mais extasiante obra do gênio.

Trechos do Livro

Neste momento senti que eu era um jogador. Senti isso como nunca até então. Minhas mãos tremiam, as pernas vergavam-se. As têmporas pulsavam agitadamente…

Aliás os jogadores sabem muito bem como é possível ficar-se cerca de vinte e quatro horas com as cartas na mão, sem se virar sequer o rosto para os lados.

Desejo penetrar-lhe na alma e arrancar-lhe os segredos; desejo que venha a mim e me diga: ‘Eu o amo!’

Aqui, Alexei Ivanovich desperta de um torpor, em princípio incompreensível.

Narrador e leitor sem rumo:

…E tudo passou como um sonho — inclusive minha paixão. No entanto ela era forte e sincera: mas… que foi feito dela? Em verdade nada resta…

…Não teria eu perdido a razão e passado todo aquele período (cassino) internado no hospício? Quem sabe se não continuo no manicômio, ainda agora, de forma que tudo aquilo não foi e continua sendo mais do que uma ilusão?…

Faz quase dois meses que não toco nestas anotações, escritas sob o impulso de sensações confusas, porém fortes. A catástrofe que eu estava prevendo realmente aconteceu e de forma cem vezes mais violenta e inesperada do que eu imaginara…

Se você se instigou em seguir até o fim com Alexei Ivanovich nesta sórdida aventura humana (172 páginas), não perca tempo e aproveite: o narrador será seu amigo e contará com o leitor porque ele mesmo está perdido, desesperado e preso às rédeas de Fiódor Dostoiévski.

 

Fonte: Lendo

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