“Último Round” e “A Volta ao Dia em 80 Mundos” de Júlio Cortázar são lançados aqui no Brasil

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL

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Capa do de “Último Round”, de Julio Cortázar, inédito no Brasil
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Os muitos cultuadores da obra do argentino Julio Cortázar têm motivos de sobra para comemorar. A editora Civilização Brasileira está lançando dois livros seus que, por um desses mistérios insondáveis do mercado editorial, permaneciam inéditos no Brasil. E melhor: está lançando tal como planejado pelo autor, em formato de bolso, com várias fotos e ilustrações entre os textos.

“A Volta ao Dia em 80 Mundos” (1967) e “Último Round” (1969), ambos em dois volumes e em tudo complementares, poderiam ser classificados como almanaques surrealistas ou diários de viagens para armar, ou qualquer coisa próximo disso. Mas na verdade são livros inclassificáveis, que misturam memórias, artigos, poemas, contos curtos, ensaios, recortes de notícias e um sem-número de diversões literárias. Vargas Llosa definiu bem: “(são) misturas alquímicas (…) nas quais (ele) revelou suas afeições, manias, obsessões, simpatias e fobias com um alegre impudor adolescente.”

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Os assuntos variam como as notas de um músico de jazz. Aliás, como já foi observado por muitos, o texto de Cortázar lembra bastante o fraseado de um saxofone ou mesmo de um trompete (o qual ele tocava), com seus períodos ora longos, ora curtos, de imagens e visões surpreendentes, que surgem como variações melódicas.

Não à toa, alguns jazzmen são tema de suas anotações. Músicos como Charlie Parker, Lester Young, Thelonious Monk e Clifford Brown aparecem como fantasmas cintilantes, iluminando as páginas com o poder da evocação e sendo iluminados pelas poéticas observações do fã Júlio. Sobre Louis Armstrong, escreve: “quando Louis canta, a ordem estabelecida das coisas pára.” O compatriota Carlos Gardel também recebe uma bela homenagem.

Dos dois, “A Volta ao Dia em 80 Mundos” é o melhor, no qual Cortázar se coloca mais abertamente, falando de seu processo criativo (“escrevo por incapacidade, por descolocação”), de sua infância, em que sonhava com as aventuras de Júlio Verne (cujo espírito permeia, de alguma maneira, todos os textos aqui compilados), e de seus livros, especialmente o clássico contemporâneo “O Jogo da Amarelinha”, que considera a versão filosófica dos seus contos. Sobre esse livro aliás, cuja estrutura de capítulos avulsos está reproduzida nesse “A Volta Ao Dia…”, há um texto curioso, em que descreve uma máquina idealizada para “ler” “O Jogo da Amarelinha”.

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Capa de “A Volta ao Dia em 80 Mundos”, de Julio Cortázar, inédito no Brasil
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Mas é no posicionamento anárquico contra a seriedade e a falta de humor dos críticos literários e pessoas em geral, que Cortázar vai mais fundo. No caleidoscópico ensaio sobre Lezama Lima, um dos muitos “cronópios” de que fala a todo momento (em oposição aos “famas”), Cortázar defende o barroquismo hermético do autor de Paradiso (1966) contra a empáfia do senso comum (que se detém em questões superficiais e não enxerga a poesia sob a casca das coisas).

“Último Round” também se filia ao lúdico e onírico contra a burocracia dos sentidos. Em textos sobre o erotismo de Sade e Battaille, sobre Marcel Duchamp ou Salvador Dalí, Cortázar se coloca sempre do lado libertário, acima de ideologias. Mas era, como ele mesmo dizia, um homem de esquerda, um “vermelho”. A estimulante colagem de slogans, textos e reminiscências de maio de 68, bem no meio de “Último Round”, deixa isso bem claro.

Também chama a atenção o texto em que reclama da velocidade das novas tecnologias, diante das quais as pessoas perderam a capacidade de se maravilhar. Não deixa de ser curioso, já que esses dois livros são, em essência, pré-blogs impressos. O que leva à pergunta: como Cortázar, morto em 1984, encararia a revolução da Internet? Tudo leva a crer que ele estaria na ponta.

Encontre os dois últimos lançamentos de Júlio Cortázar, “Último Round” e “A Volta ao Dia em 80 Mundos” aqui na Livraria Nobel Perdizes!

“A VOLTA AO DIA EM 80 MUNDOS”
Autor: Julio Cortázar
Tradução: Ari Roitman
Editora: Civilização Brasileira
Preço: R$ 29 (Tomo 1) e R$ 29 (Tomo 2)

“ÚLTIMO ROUND”
Autor: Julio Cortázar
Tradução: Ari Roitman
Editora: Civilização Brasileira
Preço: R$ 30 (Tomo 1) e R$ 30 (Tomo 2) 

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