A Índia pelos olhos de típicos norte-americanos em “A Suíte Elefanta”, de Paul Theroux

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Capa de “A Suíte Elefanta”, de Paul Theroux, livro que reúne três histórias de norte-americanos típicos que vencem a fronteira invisível que separa suas vidas burguesas do mundo real da Índia
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“A Índia era o mais próximo da vida e da morte que se podia chegar na Terra. Mas não era uma coisa ou outra: ali havia vida na morte e morte na vida”, diz o narrador de “A Suíte Elefanta”, lançamento da editora Alfaguara (tradução de Fernanda Abreu). É nesse país de contrastes que circulam as personagens de Paulo Theroux nas três novelas reunidas no livro, todas com enredos mais ou menos relacionados.

Nas três histórias, norte-americanos típicos vencem a fronteira invisível que separa suas vidas burguesas do mundo real quando desembarcam na distante Índia. Razões diversas os levam até aquele país. O casal busca descanso para o corpo e alívio para a alma; o executivo fareja oportunidades de ganhar mais dinheiro; a garota quer paz e um tanto de aventura para sua vidinha sem graça. Os conflitos começam quando eles percebem que não conseguirão abstrair o que enxergam pela janela: um país caótico, sujo e com uma lógica pelo avesso.

Theroux, que ganhou notabilidade com relatos de viagem, prova seu talento para as novelas com uma narração descritiva e bem ambientada. O texto flui mesmo quando o que está em foco são lugares-comuns, a exemplo da já batida perplexidade dos ocidentais diante do modo de vida indiano.

Texto que abre o livro, “Colina dos Macacos” é um bom exemplo desse bom uso do óbvio. Audie e Beth Blunden são ricos, bem-casados e se sentem espiritualmente num nível mais elevado em relação aos seus pares da burguesia americana. Afinal, quantos milionários de seu país escolheriam o alto de uma montanha indiana para passar as férias? Só que da verdadeira Índia, eles mantêm distância. Tudo que conhecem se resume ao que viram da janela do carro no trajeto do aeroporto ao resort onde se hospedam. Protegidos pelos muros do hotel, Audie e Beth exercitam corpo e espírito, na santa paz, até que se vêem atraídos pela Índia real.

“Colina dos Macacos” é uma história de traição e descoberta. O casal perde os parâmetros do que seria uma relação estável e se deixa levar pelo desejo quando encontra amantes locais. Mais que isso, acostumados ao luxo de Manhattan, os dois se sentem tentados a quebrar a distância segura que estabelecem da verdadeira Índia. E pagam um preço caro por isso. A novela curta (tem pouco mais de 80 páginas) é instigante do começo ao fim. Aliás, o final é o ponto alto da trama.

A estreita relação existente entre dinheiro e submissão é o mote do segundo texto do livro.

Divulgação

Escritor Paul Theroux conta histórias de norte-americanos típicos que vencem a fronteira invisível que separa suas vidas burguesas do mundo real da Índia
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Em “O Portal da Índia”, um jovem executivo de Boston faz, a contragosto, seguidas viagens de negócios à Mumbai. Como os personagens da história anterior, Dwight quer distância das ruas abarrotadas de gente, carros e animais. Se está ali, é por questões profissionais e faz questão de se comportar como tal. Limita o quanto pode sua vida à suíte elefanta, a mais cara do hotel onde está hospedado.

Isso até cruzar o portal fincado diante do edifício onde realiza suas reuniões de trabalho. Era para ser uma rápida caminhada pelos arredores, mas Dwight acaba traído pelos próprios desejos. O executivo que enchia as malas de Gatorade e atum enlatado, para assim evitar até mesmo os bons restaurantes locais, é capturado pelo lado mais obscuro da Índia: o da luxuria. É quando o americano de valores duvidosos testa até onde seu dinheiro pode comprar num país miserável.

Interessante a relação que o autor estabelece entre os textos. Em “O Portal da Índia”, por exemplo, o leitor encontra pistas sobre o paradeiro do personagem da novela anterior, “Colina dos Macacos”. Theroux usa um tempo linear, como se um episódio precedesse o outro, o que torna a narrativa ainda mais cativante.

De todos os personagens do livro, a jovem Alice, de “O Deus-Elefante”, é a mais à vontade em meio ao caos indiano. De férias após se formar na escola e deixada de lado pela amiga e companheira de viagem, Alice não se intimida em seguir só Índia adentro. Sozinha, ela pega o trem para Bangalore e se hospeda numa comunidade de meditação. Aos poucos e com facilidade, se adapta ao lugar e se enturma com os locais, passando a dar aulas de inglês. Mas nada é tão simples quando se está tão longe de casa e um terrível acontecimento vira pelo avesso a vida da garota americana.

Não espere percursos tranqüilos nos enredos de Theroux. Nas três histórias, a aparente tranqüilidade no decorrer da trama é em algum momento transformada em algo inquietante, e os finais são sempre de muito impacto. Talvez aqui esteja o segredo da narrativa: nada termina como se espera.


“A SUÍTE ELEFANTA”
Autor:
Paul Theroux
Editora: Alfaguara
Preço: R$ 45,00

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