MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Reprodução

Capa da edição brasileira de “Garota Encontra Garoto”, de Ali Smith (Companhia das Letras)
LEIA UM TRECHO DO LIVRO

O diálogo nonsense entre um avô e suas netinhas logo no começo do livro indica o que está por vir em “Garota Encontra Garoto”, da escocesa Ali Smith – a mesma de “Por Acaso” (Companhia das Letras), premiado em 2005 com o Whitbread Novel Award. A cena é quase bucólica: um vovô, numa tarde de sábado, contando histórias a suas netas sobre como era sua infância quando… Ele era uma menina. A partir dali se constrói uma narrativa em que a realidade é a todo tempo contraposta ao engano e à mentira, e o usual e corriqueiro soam absolutamente estranhos.

Cada netinha reage da sua forma às declarações do avô, o que dá pistas ao leitor sobre as diferenças entre as duas irmãs de que trata o livro. Alguns anos depois daquela tarde, Imogen é uma jovem bem-sucedida, funcionária de uma nebulosa multinacional e que leva a vida pautada pela racionalidade em excesso. Já Anthea é a mocinha de alma rebelde, que até tenta se enquadrar num emprego na mesma multinacional, mas acaba deixando a vida se transformar por inteiro a partir de um encontro. Como Apolo e Dionísio, as duas irmãs parecem habitar mundos distintos, embora se completem.

O auge do distanciamento entre as duas é a forma que cada uma enxerga o amor. Enquanto Imogen espera o momento certo para assumir (inclusive para si própria) seu interesse por um colega de trabalho, Anthea se entrega cegamente quando conhece uma figura andrógina que faz pichações de protesto na pequena Inverness, cidade natal da autora. Ali, as mensagens publicitárias recebem complementos irônicos e uma assinatura enigmática: Ifisol.

Os traços imprecisos entre o feminino e o masculino em Ifisol (ou Robin, como se revela mais tarde) ocupam o pensamento de Anthea. “Ela tinha o balanço de uma menina. Tinha a suavidade de um menino. Era carnuda como uma menina. Graciosa como um menino”, descreve a personagem. É neste ponto que Ali Smith vai buscar no mito de Ifis a base para seu enredo.

Segundo Ovídio, em “As Metamorfoses” (a autora faz questão de creditar suas fontes de pesquisa no final do livro), Ifis é a filha cretense de Ligdo e Teletusa, criada como menino em obediência a um oráculo divino. Seu disfarce é tão perfeito que Ifis acaba noivo da encantadora Iante. Seu desespero é saber que não poderá expressar todo amor que sente sem ser desmascarada. Felizmente, o mito tem final feliz e Ifis é milagrosamente transformada em homem uma noite antes da boda.

Além de atualizar esse mito à Escócia de nossos tempos, Ali Smith vai buscar na comédia shakespeariana elementos para compor sua narrativa. O mundo real cuja base é uma ilusão permeia todo o livro e transporta o leitor para uma espécie de idealismo tão possível quanto ingênuo. Nesse ponto, a autora não economiza dados estatísticos que fariam brilhar os olhos de qualquer militante do Greenpeace. E despeja, pela voz das personagens, números absurdos sobre as reservas de água no mundo e o papel das mulheres na sociedade moderna.

No final de “Garota Encontra Garoto” (tradução de Beth Vieira, Companhia das Letras), a autora promove um surpreendente encontro de todos os personagens citados ao longo da história. Das mais importantes às mais secundárias, todas as figuras do livro aparecem para os cumprimentos, antes do cerrar das cortinas. Isso tudo justificado por uma interessante imagem alegórica usada para descrever o casamento, que bem poderia ser de Ifis e Iante do século XXI.


“Garota Encontra Garoto”
Autora:
Ali Smith
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 130
Preço sugerido: R$ 35,00
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