Para alegria de seus leitores, além de poder ser considerado um dos melhores escritores vivos, o escrito norte-americano Philip Roth é também um dos mais prolíficos. nascido em Newark, EUA, em 1933, há tempos Roth tem mantido a média de um livro por ano, todos excelentes. Basta pensar nos dois últimos lançados no Brasil: “Homem Comum” e “Fantasma Sai de Cena”, duas brilhantes meditações sobre o envelhecimento e a morte.

Nancy Crampton / Divulgação

O autor norte-americano Philip Roth
LEIA TRECHO DE “FANTASMA SAI DE CENA”

“Indignation”, seu livro mais recente, ainda sem tradução para o português (a Companhia das Letras deverá lançá-lo no fim do ano que vem), também fala da morte, mas do ponto de vista de um morto. A narração, tal como em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – que Roth leu com interesse -, é feita por um jovem cadáver estirado num catre de enfermaria, de onde se ouve as explosões da Guerra da Coréia.

Marcus Messner estava com 19 anos quando foi estripado por baionetas inimigas. Corre o ano de 1951. Dão-lhe morfina, o que faz com que morra sem perceber. Suas memórias, iniciadas sob o efeito da droga, continuam, límpidas, depois que pára de respirar. É o que ele mesmo conta, na página 54. Até então não sabemos ao certo o que se passa.

Sabemos que seu pai é um açougueiro kosher (a correspondência entre os cortes de carne e o corpo despedaçado de Marcus é inevitável). Sabemos também que, de uma hora para outra, fica paranóico com a segurança do filho único. Passa a vigiar-lhe os mínimos passos, com medo de perdê-lo. Cansado do cerco paterno, Marcus vai estudar em Winnesburg, Ohio, bem longe de seu bairro judeu em Newark.

A adaptação ao colégio de tradição cristã não é fácil, no entanto. Entre discussões ásperas com colegas e uma altercação em que defende o ateísmo diante do religioso diretor (que termina com Marcus vomitando na sala inteira), apaixona-se por uma bela e complicada aluna, que leva nos pulsos as marcas de uma tentativa de suicídio. Para sua surpresa, no primeiro encontro, ela oferece um famoso favor sexual com a boca. Mas, a despeito de seu prazer, é justamente aí que a vida de Marcus começa a acabar.

“Indignation” tem muitos pontos em comum com o livro mais engraçado de Roth, “O Complexo de Portnoy”. A começar do título. “Indignação” é a palavra favorita de Portnoy e de Marcus. Há também as descobertas sexuais, sempre descritas espirituosamente, nos mínimos detalhes, e o olhar superprotetor dos pais. Sem contar a questão judaica e o ateísmo ferrenho de ambos os personagens. Mas, ao contrário do livro que trouxe fama e polêmica para Roth, os momentos cômicos em “Indignation” surgem apenas pontualmente, nas brechas do destino trágico de Marcus. Tal como o Portnoy, porém, “Indignation” é uma obra-prima.

Entre Nós
Trata-se de uma coletânea de entrevistas feitas por Roth com outros escritores. Será lançada agora em dezembro, pela Companhia das Letras. O livro é bem-vindo por vários motivos, e o primeiro deles é que ficamos conhecendo melhor o próprio Philip Roth, as influências que recebeu, sua forma de pensar e como constrói seus livros.

Roth não se limita a fazer perguntas, mas conversa longamente com os entrevistados – todos escritores que admira, alguns deles seus amigos. São conversas em que surgem vários momentos inspirados, de ambas as partes. “Um romance não afirma nada; um romance procura e coloca questões”, diz o tcheco Milan Kundera, autor de “A Insustentável Leveza do Ser”. “É o preço de ser escritor. Somos marcados pelo passado – as dores, sensações, rejeições, tudo. Acho que esse
apego ao passado é um zeloso, ainda que sem esperança, desejo de reinventá-lo para que se possa mudá-lo”, diz, por sua vez, a irlandesa Edna O’Brien. Roth: “Os escritores, como o resto da humanidade, se dividem em duas categorias: os que escutam e os que não escutam”.

Com o italiano Primo Levi, autor de “É Isso um Homem?”, doloroso e acurado relato de sua passagem por Auschwitz, Roth conversa sobre ser judeu na Itália, e também sobre escrever ao mesmo tempo em que se tem outra profissão – Levi era químico. Com Isaac Bashevis Singer, a conversa é sobre Kafka e Bruno Schulz, dois expoentes da literatura “do absurdo” ou algo que o valha. Ao final desse livro saboroso, Roth escreve sobre os principais romances de Saul Bellow, uma de suas maiores influências, também judeu, assim como o próprio Roth, Singer e Levi (Appelfeld e Malamud também estão no livro).


“Indignation”
Editora: Houghton Mifflin (importado)
Páginas: 233
Preço sugerido: US$ 26

“Entre Nós”
Editora: Companhia das Letras (lançamento dia 02/12/2008)
Páginas: 176

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