Magris surpreende em atualização de mito

NOEMI JAFFE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

No conto “Diante da Lei”, de Kafka, um porteiro semimiserável impede um camponês ainda mais miserável de entrar na porta da Lei. “(…) Sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro.”
O camponês se senta em um pequeno banquinho e lá passa o resto de seus dias, envelhecendo (enquanto o porteiro não envelhece), sem jamais tentar passar pela porta, a não ser pelo fato de humildemente rogar que o porteiro lhe dê passagem.
Pois bem. No último livro de Claudio Magris, “O Senhor Vai Entender”, é como se estivéssemos do lado de dentro daquele portão, como se ouvíssemos a personagem falando, agora já do lado de lá (ou de cá).

Kafka
Os labirintos, a imensidão, a incerteza dos espaços, o misto de admiração e horror que a personagem devota ao Presidente da Casa, seu interlocutor, lembram em tudo o discurso e a ambientação de Kafka, misto de paralisia, impotência e estranha admiração pelo outro que nos faz sofrer. Aqui, trata-se de uma retomada do mito de Orfeu e Eurídice, mas agora liberto para sempre da carga consoladora do mito.
Como em Kafka, o absurdo de Magris não reside confortavelmente num lugar distante, mas exatamente aqui, bem próximo de nós.
A Casa de Repouso (o inferno) é aqui, e a Lei à qual não temos acesso é o guichê da esquina. Nesse mito atualizado, o inferno é uma casa de repouso para onde foi direcionada a mulher que narra, depois de ter sido infectada pela mordida de uma cobra. E, pela primeira vez em incontáveis anos, o Presidente concede que ela saia da Casa para reencontrar seu amado, um poeta famoso que não suporta viver longe dela.

Mito rebaixado
Mas aqui, nesse mito rebaixado, nem mesmo o amor é íntegro: a Eurídice moderna chama seu Orfeu de um neurótico, ironiza a felicidade (“a felicidade, o vazio, a catástrofe, a plenitude insustentável de estar juntos…”) e se confessa dona de um amor narcísico (“desejava a mim vendo seu olhar”).
No mito original, é Caronte, o barqueiro, que permite que Orfeu vá até o Hades e que Eurídice de lá retorne, com a única condição de não encarar Orfeu antes de voltar à vida.
Em “O Senhor Vai Entender”, quem será o Presidente? Pode ser o barqueiro, pode ser o Diabo, pode ser Deus, mas também pode ser simplesmente o Presidente, sem alegoria alguma. E é aí que reside uma das possibilidades mais terríveis dessa atualização.
Pode ser que não haja mais alegoria a revisitar. O agradecimento enfático da personagem ao Presidente é realmente sincero ou é irônico? Após o final surpreendente do livro, percebemos que podem ser as duas coisas e que, afinal, entre sinceridade e ironia a diferença já não é mais tão grande assim.

O SENHOR VAI ENTENDER
Autor: Claudio Magris
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 28,50 (56 págs.)
Avaliação: ótimo

Fonte: Folha de São Paulo Online

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