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Capa de “O Dom”, da escritora Nikita Lalwani, sobre uma garota indiana considerada superdotada, educada sob rígida disciplina

LEIA TRECHO DE “O DOM”

Garota superdotada é personagem central em “O Dom”, livro da escritora Nikita Lalwani

Leitor que se preze sabe que um bom livro não se mede pelo que se conta, mas sim como se conta. À primeira vista, os conflitos de uma pré-adolescente nascida e criada no País de Gales, mas educada sob rígidos preceitos indianos parece um enredo batido demais. São os mesmos velhos dilemas Oriente versus Ocidente, que já tanto rendeu à literatura mundial.

Sendo assim, o que justifica o sucesso de “O Dom”, da estreante Nikita Lalwani, de cara indicado ao Man Booker Prize de melhor ficção em 2007? Resposta mais que óbvia: o livro é muito bem escrito. Certamente uma das melhores surpresas do ano, entre as novidades literárias de língua inglesa, lançadas em português (tradução de Fernanda Abreu, publicado pela Nova Fronteira).

O enredo tem algumas camadas, das quais vale destacar duas. É a história das pressões a que Rumika Vasi, uma garota considerada superdotada em matemática, enfrenta para justificar seu dom. Sob orientação dos pais, ela segue um rígido programa de estudos para entrar em Oxford com apenas 15 anos. Num plano mais abrangente, “O Dom” é a história de uma família dividida entre manter-se fiel aos preceitos de vida indianos e adaptar-se aos hábitos ocidentais, assimilando o modo de vida inglês. Mahesh, o pai, joga xadrez no pub, mas não aceita que a filha use jeans.

Rumi, a filha adolescente, é uma completa deslocada. Em casa, não vê sentido nos valores defendidos pelos pais. Na rua, não consegue fugir de estereótipo de CDF amalucada, absolutamente fora dos padrões de sua época. Contraditória, a garota é uma obcecada por números e cálculos que se deixa levar pelos devaneios de obras literárias. É justo quando está submetida a uma rotina rigorosa de estudos que Rumi começa a descobrir as possibilidades da vida. Sua genialidade não a impede de sonhar, como qualquer adolescente, com o príncipe encantado para salvá-la da vida sem graça com um romântico beijo.

A Índia aparece no livro de uma forma muito sentimental. Rumi , que se enxerga muito mais inglesa do que indiana, não resiste aos mistérios daquele país nas raras visitas que faz, em férias familiares. Os sons, os cheiros, as cores e principalmente as crenças da Índia causam um estado de encantamento na garota. Sua formação lógica não resiste ao encontro com a deusa Mansadevi, capaz de adivinhar (e realizar) um desejo guardado na mente.

Parece claro que Nikita Lalwani buscou em suas próprias memórias a bagagem necessária para a construção do enredo. A autora nasceu no Rajastão, Índia, e foi criada em Cardiff, País de Gales, mesma cidade de sua personagem Rumika. Sem dúvida, a intimidade entre criador e criatura torna a história muito mais instigante. Mas, definitivamente, o livro não seria o mesmo sem o trabalho de construção narrativa de Nikita.

A escritora se vale de um narrador onipresente, que tanto pode ler o pensamento de Rumi, como da mãe Shreene ou do pai Mahesh. O que não torna esse um romance psicológico. Há um investimento grande nas descrições físicas, com desenhos muito claros dos ambientes em que os personagens circulam. Um texto simples, coeso, sem excessos, e muito bem amarrado. Coisa boa e rara de se ver numa obra de estréia.


“O Dom”
Autora:
Nikita Lalwani
Editora: Nova Fronteira
326 páginas
Preço sugerido: R$ 35

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