FERREIRA GULLAR

Evocação do falado 56


Nós três pagávamos por vagas no que havia sido a sala de visitas e servia de quarto na pensão


A PENSÃO ficava à rua Buarque de Macedo, no Catete. Era uma casa antiga, de dois andares, onde morava gente que não tinha dinheiro para alugar apartamento nem pagar quarto de hotel. De fato, mesmo ali, quase ninguém ocupava sozinho um quarto, mas vagas. Eu, Oliveira Bastos e Carlinhos Oliveira pagávamos por três vagas no que havia sido a sala de visitas e agora servia de quarto, dividido por um tabique. No meu lado, mal cabia uma cama velha, cujo colchão era duro feito pedra; no lado deles, além de duas camas havia uma pia, que servia para tudo, tanto assim que, no poema que escrevi sobre “o falado 56”, a ela me referia como “pia, oráculo e urinol”.
Dos três, o único que tinha salário fixo era eu -extranumerário mensalista do Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Comerciários-, enquanto eles dois se viravam publicando artigos em suplementos literários ou reportagens em alguma revista semanal.
Comíamos ali mesmo a comida barata que dona Hortência mandava servir a seus hóspedes na antiga sala de jantar agora ocupada por pequenas mesas e cadeiras. Mas às vezes matávamos a fome na Associação Cristã de Moços ou no restaurante de estudantes do Calabouço, com carteira falsa. Enquanto isso, eu escrevia poemas, Bastos ensaios sobre literatura e Carlinhos um romance inspirado em Faulkner e de que só tínhamos notícia.
Um companheiro nosso, um pouco mais velho, era o romancista Lúcio Cardoso, que também “não trabalhava” na revista do IAPC e que nos arrastava para tomar chopes em botecos da Lapa.
Um dia o levamos para conhecer a pensão de dona Hortência e coincidiu que, naquela noite, morrera um hóspede do quarto que ficava acima do nosso. De farra, subimos até lá e, fingindo estarmos compungidos com sua morte, cumprimentamos a viúva. Foi quando, tomado de ímpeto incontrolável, debrucei-me sobre o cadáver e gritei: “Onde está o homem que estava aqui?”. Ficou todo mundo espantado e, nós quatro, contendo o riso, corremos para o nosso quarto onde explodimos em gargalhadas.
Naquela época, um dos pontos de encontro de intelectuais e artistas era o Vermelhinho, ali no centro da cidade, à rua Araújo Porto-Alegre, em frente à ABI. Na quadra ao lado, ficava a Escola de Belas Artes, que ainda funcionava no prédio do Museu Nacional de Belas Artes; ao fim da tarde, professores e alunos da escola vinham tomar chope no Vermelhinho, onde se encontravam com escritores e críticos de arte, quase todos funcionários públicos que, àquela hora, também saíam do trabalho. E por ali também andávamos nós, em começo de carreira, muitos vindos da província e entre eles, Wladimir Dias Pino, chegado de Mato Grosso, que inventou um jornal chamado “Japa”.
Nesse jornal, publiquei um conto intitulado “Osíris Come Flores”, que falava de uma família que vivia numa enorme árvore, como pássaros ou lagartixas. Herberto Salles gostou tanto do conto que me chamou para trabalhar na revista “O Cruzeiro”, como revisor de textos. Passei a ganhar um bom salário, a ponto de bancar a edição de meu livro “A Luta Corporal”, impresso nas oficinas daquela revista.
Decidi também deixar a pensão de dona Hortência e mudar-me para um quarto mais confortável, no apartamento de uma jovem senhora, em Copacabana. Mas morria de saudade do “falado 56” e, assim, certa manhã, ao passar pela praia do Flamengo, à altura da Buarque de Macedo, desci para visitar meus amigos. Foi uma alegria. Conversamos até a hora do almoço e, depois, rumamos juntos para o centro da cidade, onde, naquela tarde, inaugurava-se o Salão de Arte Moderna.
Fomos ao vernissage, armamos alguns pequenos escândalos e encerramos o dia numa mesa do Vermelhinho, onde conheci Thereza, com quem comecei a namorar ali mesmo e poucos meses depois me casava.
Bastos e Décio Victorio foram os padrinhos do casamento, para horror de dona Mayna, mãe da Thereza, que mal acreditava no que estava acontecendo. Quem eram aqueles dois pobres diabos, mal vestidos e mal barbeados, que vieram lhe pedir, em nome de outro maluco, a mão de sua filha?
A vida nos levou para longe da rua Buarque de Macedo. Bastos foi parar em Brasília, onde se tornou diretor de jornal, proprietário de uma mansão e criador de cavalos de raça; prometia escrever uma história crítica da poesia brasileira mas ficou devendo. Carlinhos veio a se tornar destacado cronista da imprensa carioca. E o pequeno sobrado de dona Hortência, anos depois, foi posto abaixo, arrastando consigo o nosso quarto com a pia e tudo o mais que de nós ficara impregnado naquelas paredes.

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