Livraria Nobel


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Capa de “O Dom”, da escritora Nikita Lalwani, sobre uma garota indiana considerada superdotada, educada sob rígida disciplina

LEIA TRECHO DE “O DOM”

Garota superdotada é personagem central em “O Dom”, livro da escritora Nikita Lalwani

Leitor que se preze sabe que um bom livro não se mede pelo que se conta, mas sim como se conta. À primeira vista, os conflitos de uma pré-adolescente nascida e criada no País de Gales, mas educada sob rígidos preceitos indianos parece um enredo batido demais. São os mesmos velhos dilemas Oriente versus Ocidente, que já tanto rendeu à literatura mundial.

Sendo assim, o que justifica o sucesso de “O Dom”, da estreante Nikita Lalwani, de cara indicado ao Man Booker Prize de melhor ficção em 2007? Resposta mais que óbvia: o livro é muito bem escrito. Certamente uma das melhores surpresas do ano, entre as novidades literárias de língua inglesa, lançadas em português (tradução de Fernanda Abreu, publicado pela Nova Fronteira).

O enredo tem algumas camadas, das quais vale destacar duas. É a história das pressões a que Rumika Vasi, uma garota considerada superdotada em matemática, enfrenta para justificar seu dom. Sob orientação dos pais, ela segue um rígido programa de estudos para entrar em Oxford com apenas 15 anos. Num plano mais abrangente, “O Dom” é a história de uma família dividida entre manter-se fiel aos preceitos de vida indianos e adaptar-se aos hábitos ocidentais, assimilando o modo de vida inglês. Mahesh, o pai, joga xadrez no pub, mas não aceita que a filha use jeans.

Rumi, a filha adolescente, é uma completa deslocada. Em casa, não vê sentido nos valores defendidos pelos pais. Na rua, não consegue fugir de estereótipo de CDF amalucada, absolutamente fora dos padrões de sua época. Contraditória, a garota é uma obcecada por números e cálculos que se deixa levar pelos devaneios de obras literárias. É justo quando está submetida a uma rotina rigorosa de estudos que Rumi começa a descobrir as possibilidades da vida. Sua genialidade não a impede de sonhar, como qualquer adolescente, com o príncipe encantado para salvá-la da vida sem graça com um romântico beijo.

A Índia aparece no livro de uma forma muito sentimental. Rumi , que se enxerga muito mais inglesa do que indiana, não resiste aos mistérios daquele país nas raras visitas que faz, em férias familiares. Os sons, os cheiros, as cores e principalmente as crenças da Índia causam um estado de encantamento na garota. Sua formação lógica não resiste ao encontro com a deusa Mansadevi, capaz de adivinhar (e realizar) um desejo guardado na mente.

Parece claro que Nikita Lalwani buscou em suas próprias memórias a bagagem necessária para a construção do enredo. A autora nasceu no Rajastão, Índia, e foi criada em Cardiff, País de Gales, mesma cidade de sua personagem Rumika. Sem dúvida, a intimidade entre criador e criatura torna a história muito mais instigante. Mas, definitivamente, o livro não seria o mesmo sem o trabalho de construção narrativa de Nikita.

A escritora se vale de um narrador onipresente, que tanto pode ler o pensamento de Rumi, como da mãe Shreene ou do pai Mahesh. O que não torna esse um romance psicológico. Há um investimento grande nas descrições físicas, com desenhos muito claros dos ambientes em que os personagens circulam. Um texto simples, coeso, sem excessos, e muito bem amarrado. Coisa boa e rara de se ver numa obra de estréia.


“O Dom”
Autora:
Nikita Lalwani
Editora: Nova Fronteira
326 páginas
Preço sugerido: R$ 35

PLÍNIO FRAGA
da Folha de S.Paulo, no Rio

Ter dinheiro sem ter boa cabeça é o caminho mais curto para a deselegância. O que está muito na moda está fora de moda. Criticar evita o infarto. A alta-costura não existe mais. Uma mulher requintada é discreta, magra e não usa salto alto. No máximo um saltinho.

Ouvir frases como essas –na contramão da obviedade e na esquina da maledicência bem-humorada– eram privilégios dos poucos amigos que Danuza Leão cultua, ainda mais se entrecortadas pela delícia de estar numa bodega em Sevilha, num bistrô em Paris ou numa tratoria em Roma.

O novo livro da colunista da Folha Danuza Leão, “Fazendo as Malas”, pode parecer uma simples reunião de dicas de turismo. É possível embarcar nesse roteiro prosaico com bastante deleite, acompanhando-a por quatro cidades européias.

Mas os relatos de Danuza permitem uma viagem mais profunda, numa análise de como o consumo das idéias, valores e produtos pelos anônimos se transforma em história. Ou, ao menos, em boas histórias.

Danuza começa afirmando que suas malas de viagens são proporcionais aos seus critérios. “Devo confessar que meus critérios são sempre exagerados”, diz, logo nas primeiras páginas. Mas os critérios dela são argutos e estão longe do politicamente correto. Leves como não podem ser suas malas.

O livro foi escrito a partir de uma viagem a Sevilha que Danuza tinha programado para março deste ano. Após uma conversa com o editor Luiz Schwarcz, que já havia publicado sua autobiografia, “Quase Tudo” (mais de 170 mil exemplares vendidos), ela esticou até Lisboa, Paris e Roma. De posse de um bloquinho, anotou quase tudo o que comeu, bebeu, conversou e viveu.

Ao voltar ao Brasil, debruçou-se para concluir uma obra que mescla programas de viagens e uma penca de observações e confissões saborosas. “Já fui bem consumista, mas melhorei muito, até porque o que vejo não me dá mais a taquicardia que dava quando, por exemplo, eu deparava com um vestido deslumbrante”, assume ela.

Combate chavões ao citar que, em qualquer lugar do mundo, pede-se um copo de vinho ou champanha –“un verre de vin”, “a glass of wine”. “Só no Brasil existe o hábito de pedir uma taça de vinho, ou uma tacinha, pior ainda.”

Ao relatar um passeio com uma amiga, justifica a ida ao café mais próximo para “criticar os horrores” das vitrines, exercício que afirma evitar a possibilidade de ataques do coração.

Comemora o fracasso alheio, em nome do bom gosto: “Aquele restaurante de Nova York e Los Angeles, o Nobu, pretensioso até mais não poder, abriu em Paris e fechou, por não ter feito nenhum sucesso. Deus existe e, às vezes, é justo. A-do-rei”. Não perdoa a celebrização dos chefs. “Tenho o péssimo hábito de gostar de ser muito bem recebida onde quer que eu vá, e a vaidade dos novos chefs me deixa petrificada. Por quem se tomam eles? Por Deus?”

Ao se deparar num restaurante italiano com Lee Radziwill, a irmã de Jacqueline Onassis, destila a arte feminina de medir com os olhos. “Claro que olhei muito para ela (disfarçadamente), e refleti sobre o que faz uma mulher ser elegante. Elas se vestem sempre de maneira bastante discreta, e é raro usarem cores fortes.”

Matemática Chanel

Danuza diz que mulheres elegantes devem estar atentas a uma lei matemática de madame Chanel: se a mulher é pequena, não deve usar salto alto; simples questão de proporção.

Ex-modelo nos anos 50, Danuza desdenha do mundinho fashion. “A moda mudou. Adeus à alta-costura, adeus aos vestidos que embelezam as mulheres. O que existe hoje deveria ter outro nome, diferente de ‘moda’, pois essa terminou quando Givenchy, Valentino, Saint Laurent saíram do palco. Agora é outra coisa, em algumas ocasiões até divertida.”

No livro, a ex-fumante Danuza expõe outros vícios: “Como toda mulher que se preza, sou louca por sapatos e botas”. Em Paris, neste ano, viu-se próximo de quebrar suas regras ao “quase desmaiar” quando se deparou com uma linda sandália salto 12. Teve de comprá-la.

“Quando voltei ao Rio, vi que jamais usaria a sandália, até porque, como perdi o hábito, não sei mais me equilibrar em cima de saltos. Mas rapidamente soube o que fazer: ela foi para a estante, onde posso vê-la o tempo todo (e lembrar das minhas loucuras).”

De perto ninguém é normal nem santo, prova Danuza ao narrar incidente em Roma. “Ia atravessando a rua –o sinal estava verde para mim e eu acreditei– quando veio um carro, passou o sinal vermelho e quase me atropelou. Sabe quem estava ao volante? Um padre. Será que isso não é pecado?”

FAZENDO AS MALAS
Autora: Danuza Leão
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 35


Obra marca a história da crítica de arte

FABIO CYPRIANO
DA REPORTAGEM LOCAL

Como uma imensa nuvem que turva a visão em dias ensolarados, a crítica formalista de Clement Greenberg (1909-1994) praticamente determinou os parâmetros para a observação da arte em grande parte da segunda metade do século 20.
Sua força foi tamanha que mesmo outras possibilidades de análise tiveram de partir desse ponto de vista, para então negá-lo, como é o caso do crítico Leo Steinberg e seu ensaio “Outros Critérios”.
O texto, publicado pela primeira vez em 1972, na revista norte-americana “Artforum”, dá título agora a uma coletânea lançada no Brasil pela editora Cosac&Naify.
O atraso para a chegada de Steinberg ao Brasil, apesar de o texto “Outros Critérios” ter sido publicado em “Clement Greenberg e o Debate Crítico” (Jorge Zahar, 208 págs.), organizado por Glória Ferreira e Cecília Cotrin, em 1997, possivelmente ocorreu pelo fato de o próprio Greenberg ter tido aqui menos alcance.
Foi posto em segundo plano por Mário Pedrosa (1901-1991), crítico nada formalista, precursor do conceito de pós-moderno, que diminuiu entre nós a necessidade de Steinberg, ao menos na década de 70.

Vigor renovado
Isso não retira a importância da publicação, visto que o formalismo, favorável à autonomia da arte, defendida Greenberg, acabou se fortalecendo no pensamento artístico nacional, levando as idéias de Steinberg a ganhar mais vigor no contexto atual.
O autor -que nasceu em 1920, em Moscou, mas desde o fim da Segunda Guerra Mundial vive nos Estados Unidos- rebelou-se contra um dos pilares do pensamento greenberguiano, que é a crítica como uma lente de princípios sólidos e imutáveis.
Escreve Steinberg em “Outros Critérios”: “O crítico interessado numa nova manifestação mantém afastados seus critérios e seu gosto. Uma vez que foram formulados com base na arte anterior, ele não presume que sejam adequados para a arte de hoje. Enquanto busca compreender os objetivos subjacentes à nova arte produzida, nada é excluído ou julgado irrelevante a priori”.
A estocada aí é manifesta, já que todo o pensamento de Greenberg está baseado na filosofia kantiana.
Em outro momento, o golpe é mais profundo, investindo contra a noção de Greenberg, que escreve que é só no modernismo que a arte realiza auto-análise: “Toda arte de importância, pelo menos desde os Trezentos, preocupa-se com a autocrítica. A arte é sempre sobre arte, sejam quais forem suas outras preocupações”.
Em outros ensaios, Steinberg exercita, então, os seus critérios, analisando artistas essencialmente modernos, como Picasso e Rodin, nomes da cena norte-americana, como Jasper Johns e Robert Rauschenberg, ou o grande motivo de Greenberg: Jackson Pollock.
No conjunto, eles representam um manifesto de um período específico, fundamental para abrir uma nova forma de crítica na história da arte.

OUTROS CRITÉRIOS
Autor: Leo Steinberg
Tradução: Célia Euvaldo
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 79 (464 págs.)
Avaliação: bom

Fonte: Folha de São Paulo Online

da Folha Online

Liz Gilbert tinha tudo o que alguém poderia querer –um emprego estável, um casamento, uma boa casa… mas não se sentia feliz. Ela se sentia pressionada para ter filhos que não desejava, não amava mais seu marido e não suportava a vida que levava. Pouco a pouco sua vida foi se arruinando e ela se viu sem saída.

Reprodução
Livro conta a viagem de uma mulher na itália, na Índia e na Indonésia
Livro conta a viagem de uma mulher na itália, na Índia e na Indonésia

Depois de um divórcio, uma depressão e um outro amor fracassado, Liz resolveu jogar tudo para o alto: livrou-se de todos os bens materiais, demitiu-se do emprego e partiu para uma viagem de um ano pelo mundo –sozinha.

Esta é a história de “Comer, Rezar, Amar”, da editora Objetiva, best-seller mundial com mais de 4 milhões de exemplares vendidos e aclamado pelo The New York Times como um dos 100 livros notáveis de 2006.

O livro conta a história da própria autora, Elizabeth Gilbert, que, frustrada com a vida, viajou o mundo para descobrir quem era e o que queria realmente.

Seu primeiro destino foi a Itália. Lá ela descobriu o verdadeiro prazer de comer –e engordou 11 quilos– além de ter estudado italiano e artes.

Na Índia, seu segundo destino, a autora foi em busca da devoção. Ela passou alguns meses em um ashram, uma comunidade onde as pessoas meditam, oram, praticam ioga e buscam a evolução espiritual. Com a ajuda de uma guru local e de um caubói texano, ela aprendeu a meditar realmente e ao final desta viagem,durante a última meditação que fez no templo, Liz concluiu: “Não estou orando ativamente. Eu me tornei uma oração”.

Em Bali, a intenção de Liz foi a de encontrar o equilíbrio. Ao chegar na cidade, ela visita um xamã que já conhecia de uma viagem anterior ao país. E acaba se tornando sua “secretária”. Ela ensina inglês a ele e, em troca, ele ensina Liz meditação balinesa. E é também na Indonésia que ela completa seu ciclo “em busca de todas as coisas da vida” e se apaixona novamente –desta vez, por um brasileiro.

O livro deve ganhar ainda uma versão nos cinemas, em um filme estrelado por Julia Roberts.

“Comer, Rezar, Amar”
Autora: Elizabeth Gilbert
Editora: Objetiva
Páginas: 344
Quanto: R$ 39,90

Magris surpreende em atualização de mito

NOEMI JAFFE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

No conto “Diante da Lei”, de Kafka, um porteiro semimiserável impede um camponês ainda mais miserável de entrar na porta da Lei. “(…) Sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro.”
O camponês se senta em um pequeno banquinho e lá passa o resto de seus dias, envelhecendo (enquanto o porteiro não envelhece), sem jamais tentar passar pela porta, a não ser pelo fato de humildemente rogar que o porteiro lhe dê passagem.
Pois bem. No último livro de Claudio Magris, “O Senhor Vai Entender”, é como se estivéssemos do lado de dentro daquele portão, como se ouvíssemos a personagem falando, agora já do lado de lá (ou de cá).

Kafka
Os labirintos, a imensidão, a incerteza dos espaços, o misto de admiração e horror que a personagem devota ao Presidente da Casa, seu interlocutor, lembram em tudo o discurso e a ambientação de Kafka, misto de paralisia, impotência e estranha admiração pelo outro que nos faz sofrer. Aqui, trata-se de uma retomada do mito de Orfeu e Eurídice, mas agora liberto para sempre da carga consoladora do mito.
Como em Kafka, o absurdo de Magris não reside confortavelmente num lugar distante, mas exatamente aqui, bem próximo de nós.
A Casa de Repouso (o inferno) é aqui, e a Lei à qual não temos acesso é o guichê da esquina. Nesse mito atualizado, o inferno é uma casa de repouso para onde foi direcionada a mulher que narra, depois de ter sido infectada pela mordida de uma cobra. E, pela primeira vez em incontáveis anos, o Presidente concede que ela saia da Casa para reencontrar seu amado, um poeta famoso que não suporta viver longe dela.

Mito rebaixado
Mas aqui, nesse mito rebaixado, nem mesmo o amor é íntegro: a Eurídice moderna chama seu Orfeu de um neurótico, ironiza a felicidade (“a felicidade, o vazio, a catástrofe, a plenitude insustentável de estar juntos…”) e se confessa dona de um amor narcísico (“desejava a mim vendo seu olhar”).
No mito original, é Caronte, o barqueiro, que permite que Orfeu vá até o Hades e que Eurídice de lá retorne, com a única condição de não encarar Orfeu antes de voltar à vida.
Em “O Senhor Vai Entender”, quem será o Presidente? Pode ser o barqueiro, pode ser o Diabo, pode ser Deus, mas também pode ser simplesmente o Presidente, sem alegoria alguma. E é aí que reside uma das possibilidades mais terríveis dessa atualização.
Pode ser que não haja mais alegoria a revisitar. O agradecimento enfático da personagem ao Presidente é realmente sincero ou é irônico? Após o final surpreendente do livro, percebemos que podem ser as duas coisas e que, afinal, entre sinceridade e ironia a diferença já não é mais tão grande assim.

O SENHOR VAI ENTENDER
Autor: Claudio Magris
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 28,50 (56 págs.)
Avaliação: ótimo

Fonte: Folha de São Paulo Online


Obra de Jünger tem muitas facetas

Romance do alemão, que ganha tradução impecável, tem teor alegórico e aproxima o escritor do kitsch e do fascismo

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O romance “Nos Penhascos de Mármore”, que a editora Cosac Naify apresenta agora ao público brasileiro em uma bela edição e transposto para um português impecável pelo tradutor Tercio Redondo, é uma obra de muitas facetas.
O prefácio de Antonio Candido e o posfácio do tradutor apresentam dados preciosos para o leitor, inclusive a curiosidade de que este romance foi em parte inspirado por uma viagem de dois meses ao Brasil que Ernst Jünger fizera em 1936, três anos antes da escritura deste livro. Jararacas verdes e amarelas são personagens de destaque na obra.
Antes de mais nada, o livro deixa claro novamente que Jünger era um grande escritor.
Este romance pode ser lido como uma bela peça de literatura: um texto bem escrito que constrói um universo mítico com personagens bem delineados.
A história é apresentada como um ato de recordação do protagonista -que não é nomeado-, que vivera junto com seu irmão Otho em um retiro em Marina Grande “à beira dos penhascos de mármore”.
Este local aprazível é descrito como uma espécie de paisagem ideal, idílica. Os irmãos, vivendo em um eremitério deste retiro, trabalham tanto como observadores da natureza como na organização de uma biblioteca: natureza e cultura vivem em harmonia.
Vinho e música se somam para construir uma espécie de paraíso na terra. A natureza é mágica e tem-se um total domínio sobre as jararacas que vivem no local.
Mas o cenário da história inclui também territórios adjacentes não tão desenvolvidos e tranqüilos, por onde medra o “monteiro-mor”, uma espécie de líder de um grupo de caçadores que espalham violência e são movidos pelo ódio.

Teor alegórico
A história apresenta a quebra da placidez na vida do protagonista. Otho e o narrador acabam se voltando contra os caçadores, para depois da luta no final encontrarem um novo exílio, desta vez na Alta-Plana, terra rica onde eles podem reencontrar a paz.
Mas o teor alegórico do livro é evidente e convida o leitor o tempo todo a tentar traduzir em termos históricos o que está sendo dito.
Personagens como o monteiro-mor -que “administrava o medo em pequenas doses”- lembram líderes nazistas, e os caçadores arruaceiros podem muito bem ser lidos como uma crítica às SA ou às SS.
O protagonista tem uma série de características do próprio Jünger, que é apresentado como realizando uma espécie de “emigração interna”, como ocorreu com muitos escritores alemães entre 1933 e 1945.
“Vivíamos numa época em que o autor estava condenado à solidão”, ele escreve.
Na floresta aparece também um esfoladouro, que é descrito como um local da morte, numa clara alusão aos campos de concentração. No livro, a beleza idílica convive com a crueldade e a violência. Os tons sublimes oscilam entre o sublime da natureza e a sublime maldade.
A grande questão do livro está justamente nesta sobreposição de um discurso alegórico, numa referência crítica aos nazistas, dos quais Jünger, já com a guerra eminente, tentava então se distanciar, com, por outro lado, a vida no eremitério, um verdadeiro locus amoenus.

“Sangue nobre”
O narrador, além disto, defende o “sangue nobre” como arrimo da nação. Ao lado do campo de concentração, ele colhe, emocionado, uma plantinha que o enche de felicidade e nota que “é como se a natureza o regalasse prodigamente”.
Durante a luta contra os caçadores, existe uma estetização da guerra, uma volúpia na morte e um gozo em ver a “beleza do fim”. Como escrevera em 1930 Walter Benjamin, em uma resenha de outra obra de Jünger: “Com a mobilização total da paisagem, o sentimento alemão pela natureza experimentou uma intensificação inesperada”. Neste romance de Jünger, esta intensificação acaba por aproximá-lo, de um lado, do kitsch, e do outro, do fascismo do qual não consegue se distanciar.

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA é professor de teoria literária na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros, de “O Local da Diferença” (ed. 34)

NOS PENHASCOS DE MÁRMORE Autor: Ernst Jünger
Tradução: Tercio Redondo
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 49 (200 págs.)
Avaliação: bom

 

Para alegria de seus leitores, além de poder ser considerado um dos melhores escritores vivos, o escrito norte-americano Philip Roth é também um dos mais prolíficos. nascido em Newark, EUA, em 1933, há tempos Roth tem mantido a média de um livro por ano, todos excelentes. Basta pensar nos dois últimos lançados no Brasil: “Homem Comum” e “Fantasma Sai de Cena”, duas brilhantes meditações sobre o envelhecimento e a morte.

Nancy Crampton / Divulgação

O autor norte-americano Philip Roth
LEIA TRECHO DE “FANTASMA SAI DE CENA”

“Indignation”, seu livro mais recente, ainda sem tradução para o português (a Companhia das Letras deverá lançá-lo no fim do ano que vem), também fala da morte, mas do ponto de vista de um morto. A narração, tal como em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – que Roth leu com interesse -, é feita por um jovem cadáver estirado num catre de enfermaria, de onde se ouve as explosões da Guerra da Coréia.

Marcus Messner estava com 19 anos quando foi estripado por baionetas inimigas. Corre o ano de 1951. Dão-lhe morfina, o que faz com que morra sem perceber. Suas memórias, iniciadas sob o efeito da droga, continuam, límpidas, depois que pára de respirar. É o que ele mesmo conta, na página 54. Até então não sabemos ao certo o que se passa.

Sabemos que seu pai é um açougueiro kosher (a correspondência entre os cortes de carne e o corpo despedaçado de Marcus é inevitável). Sabemos também que, de uma hora para outra, fica paranóico com a segurança do filho único. Passa a vigiar-lhe os mínimos passos, com medo de perdê-lo. Cansado do cerco paterno, Marcus vai estudar em Winnesburg, Ohio, bem longe de seu bairro judeu em Newark.

A adaptação ao colégio de tradição cristã não é fácil, no entanto. Entre discussões ásperas com colegas e uma altercação em que defende o ateísmo diante do religioso diretor (que termina com Marcus vomitando na sala inteira), apaixona-se por uma bela e complicada aluna, que leva nos pulsos as marcas de uma tentativa de suicídio. Para sua surpresa, no primeiro encontro, ela oferece um famoso favor sexual com a boca. Mas, a despeito de seu prazer, é justamente aí que a vida de Marcus começa a acabar.

“Indignation” tem muitos pontos em comum com o livro mais engraçado de Roth, “O Complexo de Portnoy”. A começar do título. “Indignação” é a palavra favorita de Portnoy e de Marcus. Há também as descobertas sexuais, sempre descritas espirituosamente, nos mínimos detalhes, e o olhar superprotetor dos pais. Sem contar a questão judaica e o ateísmo ferrenho de ambos os personagens. Mas, ao contrário do livro que trouxe fama e polêmica para Roth, os momentos cômicos em “Indignation” surgem apenas pontualmente, nas brechas do destino trágico de Marcus. Tal como o Portnoy, porém, “Indignation” é uma obra-prima.

Entre Nós
Trata-se de uma coletânea de entrevistas feitas por Roth com outros escritores. Será lançada agora em dezembro, pela Companhia das Letras. O livro é bem-vindo por vários motivos, e o primeiro deles é que ficamos conhecendo melhor o próprio Philip Roth, as influências que recebeu, sua forma de pensar e como constrói seus livros.

Roth não se limita a fazer perguntas, mas conversa longamente com os entrevistados – todos escritores que admira, alguns deles seus amigos. São conversas em que surgem vários momentos inspirados, de ambas as partes. “Um romance não afirma nada; um romance procura e coloca questões”, diz o tcheco Milan Kundera, autor de “A Insustentável Leveza do Ser”. “É o preço de ser escritor. Somos marcados pelo passado – as dores, sensações, rejeições, tudo. Acho que esse
apego ao passado é um zeloso, ainda que sem esperança, desejo de reinventá-lo para que se possa mudá-lo”, diz, por sua vez, a irlandesa Edna O’Brien. Roth: “Os escritores, como o resto da humanidade, se dividem em duas categorias: os que escutam e os que não escutam”.

Com o italiano Primo Levi, autor de “É Isso um Homem?”, doloroso e acurado relato de sua passagem por Auschwitz, Roth conversa sobre ser judeu na Itália, e também sobre escrever ao mesmo tempo em que se tem outra profissão – Levi era químico. Com Isaac Bashevis Singer, a conversa é sobre Kafka e Bruno Schulz, dois expoentes da literatura “do absurdo” ou algo que o valha. Ao final desse livro saboroso, Roth escreve sobre os principais romances de Saul Bellow, uma de suas maiores influências, também judeu, assim como o próprio Roth, Singer e Levi (Appelfeld e Malamud também estão no livro).


“Indignation”
Editora: Houghton Mifflin (importado)
Páginas: 233
Preço sugerido: US$ 26

“Entre Nós”
Editora: Companhia das Letras (lançamento dia 02/12/2008)
Páginas: 176

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