Obra de Jünger tem muitas facetas

Romance do alemão, que ganha tradução impecável, tem teor alegórico e aproxima o escritor do kitsch e do fascismo

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O romance “Nos Penhascos de Mármore”, que a editora Cosac Naify apresenta agora ao público brasileiro em uma bela edição e transposto para um português impecável pelo tradutor Tercio Redondo, é uma obra de muitas facetas.
O prefácio de Antonio Candido e o posfácio do tradutor apresentam dados preciosos para o leitor, inclusive a curiosidade de que este romance foi em parte inspirado por uma viagem de dois meses ao Brasil que Ernst Jünger fizera em 1936, três anos antes da escritura deste livro. Jararacas verdes e amarelas são personagens de destaque na obra.
Antes de mais nada, o livro deixa claro novamente que Jünger era um grande escritor.
Este romance pode ser lido como uma bela peça de literatura: um texto bem escrito que constrói um universo mítico com personagens bem delineados.
A história é apresentada como um ato de recordação do protagonista -que não é nomeado-, que vivera junto com seu irmão Otho em um retiro em Marina Grande “à beira dos penhascos de mármore”.
Este local aprazível é descrito como uma espécie de paisagem ideal, idílica. Os irmãos, vivendo em um eremitério deste retiro, trabalham tanto como observadores da natureza como na organização de uma biblioteca: natureza e cultura vivem em harmonia.
Vinho e música se somam para construir uma espécie de paraíso na terra. A natureza é mágica e tem-se um total domínio sobre as jararacas que vivem no local.
Mas o cenário da história inclui também territórios adjacentes não tão desenvolvidos e tranqüilos, por onde medra o “monteiro-mor”, uma espécie de líder de um grupo de caçadores que espalham violência e são movidos pelo ódio.

Teor alegórico
A história apresenta a quebra da placidez na vida do protagonista. Otho e o narrador acabam se voltando contra os caçadores, para depois da luta no final encontrarem um novo exílio, desta vez na Alta-Plana, terra rica onde eles podem reencontrar a paz.
Mas o teor alegórico do livro é evidente e convida o leitor o tempo todo a tentar traduzir em termos históricos o que está sendo dito.
Personagens como o monteiro-mor -que “administrava o medo em pequenas doses”- lembram líderes nazistas, e os caçadores arruaceiros podem muito bem ser lidos como uma crítica às SA ou às SS.
O protagonista tem uma série de características do próprio Jünger, que é apresentado como realizando uma espécie de “emigração interna”, como ocorreu com muitos escritores alemães entre 1933 e 1945.
“Vivíamos numa época em que o autor estava condenado à solidão”, ele escreve.
Na floresta aparece também um esfoladouro, que é descrito como um local da morte, numa clara alusão aos campos de concentração. No livro, a beleza idílica convive com a crueldade e a violência. Os tons sublimes oscilam entre o sublime da natureza e a sublime maldade.
A grande questão do livro está justamente nesta sobreposição de um discurso alegórico, numa referência crítica aos nazistas, dos quais Jünger, já com a guerra eminente, tentava então se distanciar, com, por outro lado, a vida no eremitério, um verdadeiro locus amoenus.

“Sangue nobre”
O narrador, além disto, defende o “sangue nobre” como arrimo da nação. Ao lado do campo de concentração, ele colhe, emocionado, uma plantinha que o enche de felicidade e nota que “é como se a natureza o regalasse prodigamente”.
Durante a luta contra os caçadores, existe uma estetização da guerra, uma volúpia na morte e um gozo em ver a “beleza do fim”. Como escrevera em 1930 Walter Benjamin, em uma resenha de outra obra de Jünger: “Com a mobilização total da paisagem, o sentimento alemão pela natureza experimentou uma intensificação inesperada”. Neste romance de Jünger, esta intensificação acaba por aproximá-lo, de um lado, do kitsch, e do outro, do fascismo do qual não consegue se distanciar.

MÁRCIO SELIGMANN-SILVA é professor de teoria literária na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros, de “O Local da Diferença” (ed. 34)

NOS PENHASCOS DE MÁRMORE Autor: Ernst Jünger
Tradução: Tercio Redondo
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 49 (200 págs.)
Avaliação: bom

 

Para alegria de seus leitores, além de poder ser considerado um dos melhores escritores vivos, o escrito norte-americano Philip Roth é também um dos mais prolíficos. nascido em Newark, EUA, em 1933, há tempos Roth tem mantido a média de um livro por ano, todos excelentes. Basta pensar nos dois últimos lançados no Brasil: “Homem Comum” e “Fantasma Sai de Cena”, duas brilhantes meditações sobre o envelhecimento e a morte.

Nancy Crampton / Divulgação

O autor norte-americano Philip Roth
LEIA TRECHO DE “FANTASMA SAI DE CENA”

“Indignation”, seu livro mais recente, ainda sem tradução para o português (a Companhia das Letras deverá lançá-lo no fim do ano que vem), também fala da morte, mas do ponto de vista de um morto. A narração, tal como em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” – que Roth leu com interesse -, é feita por um jovem cadáver estirado num catre de enfermaria, de onde se ouve as explosões da Guerra da Coréia.

Marcus Messner estava com 19 anos quando foi estripado por baionetas inimigas. Corre o ano de 1951. Dão-lhe morfina, o que faz com que morra sem perceber. Suas memórias, iniciadas sob o efeito da droga, continuam, límpidas, depois que pára de respirar. É o que ele mesmo conta, na página 54. Até então não sabemos ao certo o que se passa.

Sabemos que seu pai é um açougueiro kosher (a correspondência entre os cortes de carne e o corpo despedaçado de Marcus é inevitável). Sabemos também que, de uma hora para outra, fica paranóico com a segurança do filho único. Passa a vigiar-lhe os mínimos passos, com medo de perdê-lo. Cansado do cerco paterno, Marcus vai estudar em Winnesburg, Ohio, bem longe de seu bairro judeu em Newark.

A adaptação ao colégio de tradição cristã não é fácil, no entanto. Entre discussões ásperas com colegas e uma altercação em que defende o ateísmo diante do religioso diretor (que termina com Marcus vomitando na sala inteira), apaixona-se por uma bela e complicada aluna, que leva nos pulsos as marcas de uma tentativa de suicídio. Para sua surpresa, no primeiro encontro, ela oferece um famoso favor sexual com a boca. Mas, a despeito de seu prazer, é justamente aí que a vida de Marcus começa a acabar.

“Indignation” tem muitos pontos em comum com o livro mais engraçado de Roth, “O Complexo de Portnoy”. A começar do título. “Indignação” é a palavra favorita de Portnoy e de Marcus. Há também as descobertas sexuais, sempre descritas espirituosamente, nos mínimos detalhes, e o olhar superprotetor dos pais. Sem contar a questão judaica e o ateísmo ferrenho de ambos os personagens. Mas, ao contrário do livro que trouxe fama e polêmica para Roth, os momentos cômicos em “Indignation” surgem apenas pontualmente, nas brechas do destino trágico de Marcus. Tal como o Portnoy, porém, “Indignation” é uma obra-prima.

Entre Nós
Trata-se de uma coletânea de entrevistas feitas por Roth com outros escritores. Será lançada agora em dezembro, pela Companhia das Letras. O livro é bem-vindo por vários motivos, e o primeiro deles é que ficamos conhecendo melhor o próprio Philip Roth, as influências que recebeu, sua forma de pensar e como constrói seus livros.

Roth não se limita a fazer perguntas, mas conversa longamente com os entrevistados – todos escritores que admira, alguns deles seus amigos. São conversas em que surgem vários momentos inspirados, de ambas as partes. “Um romance não afirma nada; um romance procura e coloca questões”, diz o tcheco Milan Kundera, autor de “A Insustentável Leveza do Ser”. “É o preço de ser escritor. Somos marcados pelo passado – as dores, sensações, rejeições, tudo. Acho que esse
apego ao passado é um zeloso, ainda que sem esperança, desejo de reinventá-lo para que se possa mudá-lo”, diz, por sua vez, a irlandesa Edna O’Brien. Roth: “Os escritores, como o resto da humanidade, se dividem em duas categorias: os que escutam e os que não escutam”.

Com o italiano Primo Levi, autor de “É Isso um Homem?”, doloroso e acurado relato de sua passagem por Auschwitz, Roth conversa sobre ser judeu na Itália, e também sobre escrever ao mesmo tempo em que se tem outra profissão – Levi era químico. Com Isaac Bashevis Singer, a conversa é sobre Kafka e Bruno Schulz, dois expoentes da literatura “do absurdo” ou algo que o valha. Ao final desse livro saboroso, Roth escreve sobre os principais romances de Saul Bellow, uma de suas maiores influências, também judeu, assim como o próprio Roth, Singer e Levi (Appelfeld e Malamud também estão no livro).


“Indignation”
Editora: Houghton Mifflin (importado)
Páginas: 233
Preço sugerido: US$ 26

“Entre Nós”
Editora: Companhia das Letras (lançamento dia 02/12/2008)
Páginas: 176

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Reprodução

Capa da edição brasileira de “Garota Encontra Garoto”, de Ali Smith (Companhia das Letras)
LEIA UM TRECHO DO LIVRO

O diálogo nonsense entre um avô e suas netinhas logo no começo do livro indica o que está por vir em “Garota Encontra Garoto”, da escocesa Ali Smith – a mesma de “Por Acaso” (Companhia das Letras), premiado em 2005 com o Whitbread Novel Award. A cena é quase bucólica: um vovô, numa tarde de sábado, contando histórias a suas netas sobre como era sua infância quando… Ele era uma menina. A partir dali se constrói uma narrativa em que a realidade é a todo tempo contraposta ao engano e à mentira, e o usual e corriqueiro soam absolutamente estranhos.

Cada netinha reage da sua forma às declarações do avô, o que dá pistas ao leitor sobre as diferenças entre as duas irmãs de que trata o livro. Alguns anos depois daquela tarde, Imogen é uma jovem bem-sucedida, funcionária de uma nebulosa multinacional e que leva a vida pautada pela racionalidade em excesso. Já Anthea é a mocinha de alma rebelde, que até tenta se enquadrar num emprego na mesma multinacional, mas acaba deixando a vida se transformar por inteiro a partir de um encontro. Como Apolo e Dionísio, as duas irmãs parecem habitar mundos distintos, embora se completem.

O auge do distanciamento entre as duas é a forma que cada uma enxerga o amor. Enquanto Imogen espera o momento certo para assumir (inclusive para si própria) seu interesse por um colega de trabalho, Anthea se entrega cegamente quando conhece uma figura andrógina que faz pichações de protesto na pequena Inverness, cidade natal da autora. Ali, as mensagens publicitárias recebem complementos irônicos e uma assinatura enigmática: Ifisol.

Os traços imprecisos entre o feminino e o masculino em Ifisol (ou Robin, como se revela mais tarde) ocupam o pensamento de Anthea. “Ela tinha o balanço de uma menina. Tinha a suavidade de um menino. Era carnuda como uma menina. Graciosa como um menino”, descreve a personagem. É neste ponto que Ali Smith vai buscar no mito de Ifis a base para seu enredo.

Segundo Ovídio, em “As Metamorfoses” (a autora faz questão de creditar suas fontes de pesquisa no final do livro), Ifis é a filha cretense de Ligdo e Teletusa, criada como menino em obediência a um oráculo divino. Seu disfarce é tão perfeito que Ifis acaba noivo da encantadora Iante. Seu desespero é saber que não poderá expressar todo amor que sente sem ser desmascarada. Felizmente, o mito tem final feliz e Ifis é milagrosamente transformada em homem uma noite antes da boda.

Além de atualizar esse mito à Escócia de nossos tempos, Ali Smith vai buscar na comédia shakespeariana elementos para compor sua narrativa. O mundo real cuja base é uma ilusão permeia todo o livro e transporta o leitor para uma espécie de idealismo tão possível quanto ingênuo. Nesse ponto, a autora não economiza dados estatísticos que fariam brilhar os olhos de qualquer militante do Greenpeace. E despeja, pela voz das personagens, números absurdos sobre as reservas de água no mundo e o papel das mulheres na sociedade moderna.

No final de “Garota Encontra Garoto” (tradução de Beth Vieira, Companhia das Letras), a autora promove um surpreendente encontro de todos os personagens citados ao longo da história. Das mais importantes às mais secundárias, todas as figuras do livro aparecem para os cumprimentos, antes do cerrar das cortinas. Isso tudo justificado por uma interessante imagem alegórica usada para descrever o casamento, que bem poderia ser de Ifis e Iante do século XXI.


“Garota Encontra Garoto”
Autora:
Ali Smith
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 130
Preço sugerido: R$ 35,00

Este mito será apresentado aqui, na Livraria Nobel de Perdizes, pela Academia Mental na última terça-feira de novembro. A palestra será gratuita.
Academia Mental
 

 MITO ATALANTA - PEQUENA REFLEXÃO

 

por Academia Mentalacademiamental@yahoo.com.br

MITO ATALANTA

 

Questionamentos:
1. O que nos leva a disputa?
2. Por quê insistimos em situações frustantes?

Atalanta, adorável e linda caçadora, filha do rei da Arcádia estava triste com a morte de seu amado, Meléagro.Seu pai, orgulhoso com a filha, pediu-lhe que casasse com um dos muitos nobres que a cortejava após o seu triunfo na caçada de Calidão. Atalanta aceitou casar-se com aquele que a derrotaria numa corrida, sabendo que nenhum homem mortal era tão veloz quanto ela. Entre aqueles que assistiam diariamente às disputas estava Milanion, primo de Atalanta. Ele pediu ajuda dos deuses para vencer Atalanta; procurou Afrodite dizendo-lhe que Atalanta tinha se tornado para ele mais que vida. E que já nem mais sentia pesar por seus jovens amigos mortos na disputa com Atalanta.

Afrodite ajudou-o colhendo no jardim do seu templo três maças douradas. Orientou-o como deveria usá-las no dia da disputa.Atalanta e Milanion iniciaram a corrida. Para quem estava assistindo seria uma corrida digna de ser presenciada pelos deuses. Corriam quase que lado a lado quando Milanion obedecendo à recomendação de Afrodite deixou cair uma maçã dourada. Atalanta parou e apanhou o fruto reluzente e precioso, retomou a corrida e quando já ultrapassava Milanion este lançou a segunda maçã dourada. Seduzida pelo fruto parou para apanhá-la. Novamente Milanion ganhou distância. Quando Atalanta reconquistou o tempo perdido a maçã da ilusão dourada dos deuses foi jogada e outra vez Atalanta parou. Ouviu-se entre os espectadores uma espetacular aclamação. Atalanta foi vencida e correu feliz ao encontro do vencedor. Já amava o jovem que fora tão ousado em desafiá-la numa disputa que ela planejou não haver vencedor. Milanion vencera o coração da virgem caçadora.

 VENHAM CONFERIR!

   

Em formidável obra de estréia, Sebald questiona a memória

Romance do autor alemão antecipa temas que ganharam densidade em livros posteriores, como “Os Anéis de Saturno’

JOCA REINERS TERRON
ESPECIAL PARA A FOLHA

E scritor tardio, somente aos 46 anos W.G. Sebald publicou “Vertigem”, seu primeiro romance que, totalmente fora de ordem, sai só agora no Brasil sucedendo livros mais recentes. Assim, seu estilo nasceu sólido feito magma frio. Estilo não significa pouco na curta obra do alemão: autor de descrições tão precisas quanto preciosas, Sebald alcança com palavras (e não são muitas, graças a sua fatura sóbria) o que o afresco busca representar pictoricamente -imagens velozes em que nuanças da cor são usadas para transportar o leitor até as paisagens descritas.
Sua literatura, porém, parece questionar a veracidade de lembranças contidas em imagens sempre fugidias.
Desde o início, em “Vertigem”, a deambulação reflexiva acompanhada de peregrinações (seus livros se assemelham muito a diários de viagens) conforma a estrutura episódica dessas histórias que igualmente trafegam entre os gêneros, com predominância da pulsão ensaística a palpitar na linguagem.
Aqui, principiamos por acompanhar o jovem Henri Beyle (o nome verdadeiro de Stendhal) na travessia dos Alpes junto das tropas napoleônicas, em 1800. Por meio de seus diários de campanha e também dos posteriores, de viagens pela Itália, Sebald começa a desdenhar do alcance da memória e reconhece o irromper da fantasia naquela que seria a melhor fase de Beyle, a da maturidade pós-50 anos de idade.
Depois, vemos o próprio Sebald (em 1980) sobrevivendo a uma severa depressão e transitando pelas mesmas cidades italianas conhecidas por Beyle.

Lembrança
De início baseado no caos da repetição e da rotina, esse peripatetismo culmina no reconhecimento das limitações da lembrança (não é sua primeira visita àqueles locais), nos detalhes das pinturas e dos afrescos que se deformam e nas impressões que se distorcem com o tempo.
Pulamos então para uma descrição da breve e infeliz passagem de Franz Kafka pela mesma região em 1913 (e novamente os diários adquirem importância).
O salto, então, é dado para 1987, quando (depois de uma ausência de 30 anos), Sebald retorna à sua cidade-natal, Wertach im Allgäu (referida apenas com um misterioso “W”), para tão-somente perceber, assim como Beyle ao descobrir anos depois que sua lembrança de juventude da cidade de Ivrea não era verdadeira, mas surgida da imagem reproduzida num prospecto, que não reconhece quase nada e pior, que isto não tem mais importância.
Tudo como na conhecida anedota de Borges, que da mesma forma se entristecia por não ter recordações verdadeiras das coisas passadas, mas apenas recordações de recordações de recordações.
“Vertigem” é um formidável primeiro livro que antecipa a temática do autor alemão que ganharia densidade em “Os Anéis de Saturno”, “Os Emigrantes” e “Austerlitz”, seus livros posteriores.
Criador de obra tão desafortunadamente sucinta (ele morreu num acidente de automóvel em 2001) quanto fundamental, W.G. Sebald questiona a frágil idéia de identidade da vida humana no século 21.

JOCA REINERS TERRON é escritor, autor de “Sonho Interrompido por Guilhotina” (Casa da Palavra)

VERTIGEM
Autor: W. G. Sebald
Tradução: José Marcos Macedo
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 41 (200 págs.)
Avaliação: ótimo

TRECHO

Pontualmente à uma e quinze chegou o ônibus azul que eu pretendia tomar para Riva. Logo embarquei e me sentei em um dos bancos de trás. Alguns outros passageiros também subiram. Em parte gente da região, em parte turistas como eu. Pouco antes de o ônibus partir, à uma e vinte e cinco, embarcou um jovem de cerca de quinze anos que guardava a mais inquietante semelhança que se pode imaginar com as fotos de Kafka quando estudante adolescente. E, como se isso não bastasse, o jovem tinha ainda um irmão gêmeo que, até onde pude constatar em meu estado de perplexidade, era igualzinho a ele, sem tirar nem pôr. Em ambos o contorno do couro cabeludo avançava fundo na testa, e tinham os mesmos olhos escuros e sobrancelhas espessas, as mesmas orelhas grandes e desiguais, com lóbulos grudados ao pescoço. Estavam acompanhados dos pais e tomaram assento ainda mais atrás de mim. O ônibus deu partida e desceu a Via Cavour. Os galhos das árvores alinhadas na avenida roçavam o teto. Meu coração pulou, e uma sensação de vertigem se apoderou de mim como costumava acontecer na minha infância, quando em qualquer viagem de carro eu me sentia mal. Apoiei a cabeça de lado na moldura da janela, contra o vento, e durante um longo tempo não me atrevi a olhar ao redor. Somente quando Salò havia ficado bem para trás e nos aproximávamos de Gargnano, fui capaz de vencer o medo em meus membros e olhar para trás sobre o ombro.

Extraído de “Vertigem”, de W. G. Sebald

Livro analisa processos contra cadete que matou Euclides da Cunha e foi absolvido

SÉRGIO SALOMÃO SHECAIRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O livro de Luiza Nagib Eluf sobre Euclides da Cunha tenta traçar um perfil histórico, jurídico e comportamental do início do século 20. Narra, fundamentalmente, a essência da vida conflituosa entre o consagrado autor de “Os Sertões” e sua mulher, Anna Emília Ribeiro (depois Anna de Assis), no triângulo amoroso formado com o cadete da Escola Militar, Dilermando de Assis.
A inovação da abordagem se dá pela análise detalhada dos autos dos processos a que Dilermando respondeu, em que se invocou o instituto da legítima defesa, razão acolhida para se absolver o acusado nas três vezes em que foi a julgamento.
Diferentemente do alentado depoimento concedido pela filha de Anna de Assis (Judith Ribeiro de Assis) a Jeferson de Andrade (“Anna de Assis – História de um Trágico Amor”; Codecri/Pasquim, 1987), o livro de Luiza Eluf não centra seu foco na análise da vida cotidiana dos envolvidos na tragédia. Ela descreve sucintamente o episódio, para centrar a abordagem nos processos que envolveram Dilermando de Assis.
A tragédia do consagrado escritor é mais ou menos conhecida de todos. Ao descobrir que sua mulher, Anna, envolvera-se com outro homem, resolve matá-lo. Embora tenha atirado em Dilermando primeiro, Euclides da Cunha não acerta seu alvo de forma precisa, permitindo a reação em legítima defesa, vindo a falecer. Anos mais tarde, um de seus filhos tenta vingar a sua morte. Novamente em legítima defesa, Dilermando mata seu agressor.
No entanto, aquilo que a autora tentou destacar como o ponto mais interessante de sua abordagem, no bem-ilustrado e bonito livro que lança, acaba sendo seu ponto mais deficiente: a análise jurídica do caso.
São citados somente três autores, um dos quais é um livro preparatório para concursos públicos. Alguns julgados citados sobre legítima defesa datam de 50 anos. O mais novo deles é dos anos 80.
O primeiro julgamento a que foi submetido Dilermando, no Distrito Federal, deu-se em maio de 1911. Eram 12 jurados, e o resultado foi um empate: 6 a 6. Restou o réu, pois, absolvido.
Desde o Código do Processo Criminal de Primeira Instância de 1832 (artigo 259), já se estabelecia que o procedimento de júri, à semelhança do norte-americano, teria esse número de jurados.
O julgamento foi posteriormente anulado, vindo Dilermando a ser submetido a novo júri em 1914, quando vigia o Código Estadual de 20/12/1912. A existência dos Códigos Estaduais foi autorizada pela Constituição de 1891, quando se outorgou aos Estados a competência para legislar sobre Processo Civil e Penal.
Assim, já no segundo julgamento, eram sete somente os jurados, não podendo haver empates nos quesitos votados.
Também não se deu devida atenção a toda discussão jurídica sobre os homicidas passionais, que remonta à escola positiva italiana.
Além disso, todas as conclusões principais sobre a vida dos envolvidos têm por base o livro-depoimento da filha de Anna de Assis.
É, evidentemente, uma visão de uma parte envolvida. E, se o objetivo é analisar a versão jurídica dada ao caso, outras fontes deveriam ser citadas. Não por outra razão é que na conclusão assevera-se que Anna “não cometeu nenhum ato reprovável ao se apaixonar por Dilermando” (pág. 137), mas somente Euclides é quem errou!

SÉRGIO SALOMÃO SHECAIRA é professor titular de direito penal da USP

MATAR OU MORRER – O CASO EUCLIDES DA CUNHA
Autor: Luiza Nagib Eluf
Editora: Saraiva
Quanto: R$ 49 (168 págs.)
Avaliação: regular

Mais vendidos, 02 de Novembro de 2008

Ficção

1. O Vendedor de Sonhos – Augusto Cury, R$29,00 (Ed. Academia de Inteligência)

2. A Cabana – William P. Young, R$24,90 (Ed. Sextante)

3. Lua Nova – Stephenie Meyer, R$39,90 (Ed. Intrínseca)

4. Crepúsculo – Stephenie Meyer, R$39,90 (Ed. Intrínseca)

5. O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Záfon, R$39,90 (Ed. Suma das Letras)

6. Quando Nietzsche Chorou – Irvin D. Yalom, R$49,90 (Ed. Ediouro)

7. A Menina Que Roubava Livros – Markus Zasak, R$ 39,90 (Ed. Intrínseca)

8. Ensaio Sobre A Cegueira – José Saramago, R$44,00 (Ed. Companhia das Letras)

9. Os Homens Que Não Amavam As Mulheres – Stieg Larsson, R$49,00 (Ed. Companhia das Letras)

10. O Carrasco do Amor – Irvin D. Yalom, R$34,90 (Ed. Ediouro)

 

Não-ficção

1. 1808 – Laurentino Gomes, R$39,90 (Ed. Planeta)

2. Comer, Rezar, Amar – Elizabeth Gilbert, R$39,90 (Ed. Objetiva)

3. Marley e Eu – John Grogan, R$29,90 (Ed. Ediouro)

4. Uma Breve História do Mundo – Geoffrey Blainey, R$38,50 (Ed. Fundamento)

5. Dewey, Um Gato Entre Livros – Vicki Myron, R$24,90 (Ed. Globo)

6. O País dos Petralhas – Reinaldo Azevedo, R$38,00 (Ed. Record)

7. Laowai, História de uma Repórter Brasileira na China – Sônia Bridi, R$39,90 (Ed. Letras Brasileiras)

8. O Mundo é Bárbaro – Luis Fernando Veríssimo, R$29,90 (Ed. Objetiva)

9. Resistência, A História da Mulher que Desafiou Hitler – Agnès Humbert, R$39,90 (Ed. Nova Fronteira)

10. A Alma Moral – Nilton Bonder, R$24,00 (Ed. Rocco)

 

Auto-ajuda e Negócios

1. A Arte da Guerra, Os Treza Capítulos – Sun Tzu, R$34,90 (Ed. Jardim dos Livros)

2. A Lição Final – Randy Pausch, R$34,90 (Ed. Agir)

3. Eles Continuam Entre Nós – Zibia Gasparetto, R$22,00 (Ed. Vida e Consciência)

4. O Segredo – Rhonda Byrne, R$39,90 (Ed. Ediouro)

5. Investimentos Inteligentes – Gustavo Cerbasi, R$34,90 (Ed. Thomas Nelson)

6. A Lei da Atração – Michael Losier, R$19,90 (Ed. Nova Fronteira)

7. O Monge e o Executivo – James Hunter, R$19,90 (Ed. Sextante)

8. Nunca Desista De Seus Sonhos – Augusto Cury, R$19,90 (Ed. Sextante)

9. Casais Inteligente Enriquecem Juntos – Gustavo Cerbasi, R$30,00 (Ed. Gente)

10. Os Segredos da Mente Milionária – T. Harv Eker, R$19,90 (Ed. Sextante)

 

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