Divulgação

Capa do livro “Conversas Com Woody Allen”, de Eric Lax
VEJA FOTOS DO LIVRO
LEIA TRECHO DE “CONVERSAS COM WOODY ALLEN”
Mais europeu dos cineastas americanos, Woody Allen continua sendo uma exceção. Não se enquadra no sistema industrial dos Estados Unidos, embora realize religiosamente um filme por ano. E também não pode ser comparado aos “independentes”, já que sua estética, seus temas preferidos e suas idéias não se enquadram nesse “formato”.

Rotular Allen como o “único autor remanescente no cinema americano” seria uma saída fácil demais para explicar o porque ele é singular. O jornalista Eric Lax, biógrafo do cineasta, escreveu um livro só para isso. “Conversas com Woody Allen” (Cosac & Naify) reúne entrevistas feitas por Lax com o diretor ao longo de 36 anos. O escritor as desmembrou para depois reorganizá-las cronolgicamente dentro de capítulos temáticos que percorrem todo o processo criativo do biografado.

Lax esmiuça com Allen desde a gênese das idéias até a elaboração da trilha sonora dos filmes, sem esquecer de dar-lhe voz para fazer uma avaliação de sua própria carreira. Talvez nesse ponto Lax peque pela reverência excessiva, a falta de distanciamento crítico do personagem, algo em que não está sozinho nesse setor do mundo literário.

Cita-se indistintamente filmes como “Manhattan”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Interiores”, “Setembro” e “Scoop” sem estabelecer um diferencial entre eles que não seja puramente formal. Allen, sempre muito autocrítico, como seus personagens, ajuda nesse sentido. Mas com a austera convicção de que ou “era jovem demais” ou “induziram-lhe ao erro”.

Pode-se não gostar de Woody Allen ou tomar os seus melhores filmes por obras superestimadas, mas não se pode negar que sua trajetória revela uma evolução gradual e sem paralelo possível. De cineasta intuitivo que costurava gags visuais em comédias como “Bananas”, “O Dorminhoco” e “Tudo Que Você Queria Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar” até diretor experiente e sofisticado de dramas como “Crimes e Pecados” e “Ponto Final”.

Mais do que elucidar e organizar o método de Allen, o livro mostra como o habilidoso humorista se tornou um dos mais argutos críticos da Era da ansiedade. É um livro de referência sobre um único cineasta, o que não o isenta de defeitos, como os citados acima e a falta de uma filmografia completa. Esta última ajudaria bastante o leitor não-iniciado.

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Obra marca a história da crítica de arte

FABIO CYPRIANO
DA REPORTAGEM LOCAL

Como uma imensa nuvem que turva a visão em dias ensolarados, a crítica formalista de Clement Greenberg (1909-1994) praticamente determinou os parâmetros para a observação da arte em grande parte da segunda metade do século 20.
Sua força foi tamanha que mesmo outras possibilidades de análise tiveram de partir desse ponto de vista, para então negá-lo, como é o caso do crítico Leo Steinberg e seu ensaio “Outros Critérios”.
O texto, publicado pela primeira vez em 1972, na revista norte-americana “Artforum”, dá título agora a uma coletânea lançada no Brasil pela editora Cosac&Naify.
O atraso para a chegada de Steinberg ao Brasil, apesar de o texto “Outros Critérios” ter sido publicado em “Clement Greenberg e o Debate Crítico” (Jorge Zahar, 208 págs.), organizado por Glória Ferreira e Cecília Cotrin, em 1997, possivelmente ocorreu pelo fato de o próprio Greenberg ter tido aqui menos alcance.
Foi posto em segundo plano por Mário Pedrosa (1901-1991), crítico nada formalista, precursor do conceito de pós-moderno, que diminuiu entre nós a necessidade de Steinberg, ao menos na década de 70.

Vigor renovado
Isso não retira a importância da publicação, visto que o formalismo, favorável à autonomia da arte, defendida Greenberg, acabou se fortalecendo no pensamento artístico nacional, levando as idéias de Steinberg a ganhar mais vigor no contexto atual.
O autor -que nasceu em 1920, em Moscou, mas desde o fim da Segunda Guerra Mundial vive nos Estados Unidos- rebelou-se contra um dos pilares do pensamento greenberguiano, que é a crítica como uma lente de princípios sólidos e imutáveis.
Escreve Steinberg em “Outros Critérios”: “O crítico interessado numa nova manifestação mantém afastados seus critérios e seu gosto. Uma vez que foram formulados com base na arte anterior, ele não presume que sejam adequados para a arte de hoje. Enquanto busca compreender os objetivos subjacentes à nova arte produzida, nada é excluído ou julgado irrelevante a priori”.
A estocada aí é manifesta, já que todo o pensamento de Greenberg está baseado na filosofia kantiana.
Em outro momento, o golpe é mais profundo, investindo contra a noção de Greenberg, que escreve que é só no modernismo que a arte realiza auto-análise: “Toda arte de importância, pelo menos desde os Trezentos, preocupa-se com a autocrítica. A arte é sempre sobre arte, sejam quais forem suas outras preocupações”.
Em outros ensaios, Steinberg exercita, então, os seus critérios, analisando artistas essencialmente modernos, como Picasso e Rodin, nomes da cena norte-americana, como Jasper Johns e Robert Rauschenberg, ou o grande motivo de Greenberg: Jackson Pollock.
No conjunto, eles representam um manifesto de um período específico, fundamental para abrir uma nova forma de crítica na história da arte.

OUTROS CRITÉRIOS
Autor: Leo Steinberg
Tradução: Célia Euvaldo
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 79 (464 págs.)
Avaliação: bom

Fonte: Folha de São Paulo Online

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Reprodução

Capa da edição brasileira de “Garota Encontra Garoto”, de Ali Smith (Companhia das Letras)
LEIA UM TRECHO DO LIVRO

O diálogo nonsense entre um avô e suas netinhas logo no começo do livro indica o que está por vir em “Garota Encontra Garoto”, da escocesa Ali Smith – a mesma de “Por Acaso” (Companhia das Letras), premiado em 2005 com o Whitbread Novel Award. A cena é quase bucólica: um vovô, numa tarde de sábado, contando histórias a suas netas sobre como era sua infância quando… Ele era uma menina. A partir dali se constrói uma narrativa em que a realidade é a todo tempo contraposta ao engano e à mentira, e o usual e corriqueiro soam absolutamente estranhos.

Cada netinha reage da sua forma às declarações do avô, o que dá pistas ao leitor sobre as diferenças entre as duas irmãs de que trata o livro. Alguns anos depois daquela tarde, Imogen é uma jovem bem-sucedida, funcionária de uma nebulosa multinacional e que leva a vida pautada pela racionalidade em excesso. Já Anthea é a mocinha de alma rebelde, que até tenta se enquadrar num emprego na mesma multinacional, mas acaba deixando a vida se transformar por inteiro a partir de um encontro. Como Apolo e Dionísio, as duas irmãs parecem habitar mundos distintos, embora se completem.

O auge do distanciamento entre as duas é a forma que cada uma enxerga o amor. Enquanto Imogen espera o momento certo para assumir (inclusive para si própria) seu interesse por um colega de trabalho, Anthea se entrega cegamente quando conhece uma figura andrógina que faz pichações de protesto na pequena Inverness, cidade natal da autora. Ali, as mensagens publicitárias recebem complementos irônicos e uma assinatura enigmática: Ifisol.

Os traços imprecisos entre o feminino e o masculino em Ifisol (ou Robin, como se revela mais tarde) ocupam o pensamento de Anthea. “Ela tinha o balanço de uma menina. Tinha a suavidade de um menino. Era carnuda como uma menina. Graciosa como um menino”, descreve a personagem. É neste ponto que Ali Smith vai buscar no mito de Ifis a base para seu enredo.

Segundo Ovídio, em “As Metamorfoses” (a autora faz questão de creditar suas fontes de pesquisa no final do livro), Ifis é a filha cretense de Ligdo e Teletusa, criada como menino em obediência a um oráculo divino. Seu disfarce é tão perfeito que Ifis acaba noivo da encantadora Iante. Seu desespero é saber que não poderá expressar todo amor que sente sem ser desmascarada. Felizmente, o mito tem final feliz e Ifis é milagrosamente transformada em homem uma noite antes da boda.

Além de atualizar esse mito à Escócia de nossos tempos, Ali Smith vai buscar na comédia shakespeariana elementos para compor sua narrativa. O mundo real cuja base é uma ilusão permeia todo o livro e transporta o leitor para uma espécie de idealismo tão possível quanto ingênuo. Nesse ponto, a autora não economiza dados estatísticos que fariam brilhar os olhos de qualquer militante do Greenpeace. E despeja, pela voz das personagens, números absurdos sobre as reservas de água no mundo e o papel das mulheres na sociedade moderna.

No final de “Garota Encontra Garoto” (tradução de Beth Vieira, Companhia das Letras), a autora promove um surpreendente encontro de todos os personagens citados ao longo da história. Das mais importantes às mais secundárias, todas as figuras do livro aparecem para os cumprimentos, antes do cerrar das cortinas. Isso tudo justificado por uma interessante imagem alegórica usada para descrever o casamento, que bem poderia ser de Ifis e Iante do século XXI.


“Garota Encontra Garoto”
Autora:
Ali Smith
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 130
Preço sugerido: R$ 35,00

Em formidável obra de estréia, Sebald questiona a memória

Romance do autor alemão antecipa temas que ganharam densidade em livros posteriores, como “Os Anéis de Saturno’

JOCA REINERS TERRON
ESPECIAL PARA A FOLHA

E scritor tardio, somente aos 46 anos W.G. Sebald publicou “Vertigem”, seu primeiro romance que, totalmente fora de ordem, sai só agora no Brasil sucedendo livros mais recentes. Assim, seu estilo nasceu sólido feito magma frio. Estilo não significa pouco na curta obra do alemão: autor de descrições tão precisas quanto preciosas, Sebald alcança com palavras (e não são muitas, graças a sua fatura sóbria) o que o afresco busca representar pictoricamente -imagens velozes em que nuanças da cor são usadas para transportar o leitor até as paisagens descritas.
Sua literatura, porém, parece questionar a veracidade de lembranças contidas em imagens sempre fugidias.
Desde o início, em “Vertigem”, a deambulação reflexiva acompanhada de peregrinações (seus livros se assemelham muito a diários de viagens) conforma a estrutura episódica dessas histórias que igualmente trafegam entre os gêneros, com predominância da pulsão ensaística a palpitar na linguagem.
Aqui, principiamos por acompanhar o jovem Henri Beyle (o nome verdadeiro de Stendhal) na travessia dos Alpes junto das tropas napoleônicas, em 1800. Por meio de seus diários de campanha e também dos posteriores, de viagens pela Itália, Sebald começa a desdenhar do alcance da memória e reconhece o irromper da fantasia naquela que seria a melhor fase de Beyle, a da maturidade pós-50 anos de idade.
Depois, vemos o próprio Sebald (em 1980) sobrevivendo a uma severa depressão e transitando pelas mesmas cidades italianas conhecidas por Beyle.

Lembrança
De início baseado no caos da repetição e da rotina, esse peripatetismo culmina no reconhecimento das limitações da lembrança (não é sua primeira visita àqueles locais), nos detalhes das pinturas e dos afrescos que se deformam e nas impressões que se distorcem com o tempo.
Pulamos então para uma descrição da breve e infeliz passagem de Franz Kafka pela mesma região em 1913 (e novamente os diários adquirem importância).
O salto, então, é dado para 1987, quando (depois de uma ausência de 30 anos), Sebald retorna à sua cidade-natal, Wertach im Allgäu (referida apenas com um misterioso “W”), para tão-somente perceber, assim como Beyle ao descobrir anos depois que sua lembrança de juventude da cidade de Ivrea não era verdadeira, mas surgida da imagem reproduzida num prospecto, que não reconhece quase nada e pior, que isto não tem mais importância.
Tudo como na conhecida anedota de Borges, que da mesma forma se entristecia por não ter recordações verdadeiras das coisas passadas, mas apenas recordações de recordações de recordações.
“Vertigem” é um formidável primeiro livro que antecipa a temática do autor alemão que ganharia densidade em “Os Anéis de Saturno”, “Os Emigrantes” e “Austerlitz”, seus livros posteriores.
Criador de obra tão desafortunadamente sucinta (ele morreu num acidente de automóvel em 2001) quanto fundamental, W.G. Sebald questiona a frágil idéia de identidade da vida humana no século 21.

JOCA REINERS TERRON é escritor, autor de “Sonho Interrompido por Guilhotina” (Casa da Palavra)

VERTIGEM
Autor: W. G. Sebald
Tradução: José Marcos Macedo
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 41 (200 págs.)
Avaliação: ótimo

TRECHO

Pontualmente à uma e quinze chegou o ônibus azul que eu pretendia tomar para Riva. Logo embarquei e me sentei em um dos bancos de trás. Alguns outros passageiros também subiram. Em parte gente da região, em parte turistas como eu. Pouco antes de o ônibus partir, à uma e vinte e cinco, embarcou um jovem de cerca de quinze anos que guardava a mais inquietante semelhança que se pode imaginar com as fotos de Kafka quando estudante adolescente. E, como se isso não bastasse, o jovem tinha ainda um irmão gêmeo que, até onde pude constatar em meu estado de perplexidade, era igualzinho a ele, sem tirar nem pôr. Em ambos o contorno do couro cabeludo avançava fundo na testa, e tinham os mesmos olhos escuros e sobrancelhas espessas, as mesmas orelhas grandes e desiguais, com lóbulos grudados ao pescoço. Estavam acompanhados dos pais e tomaram assento ainda mais atrás de mim. O ônibus deu partida e desceu a Via Cavour. Os galhos das árvores alinhadas na avenida roçavam o teto. Meu coração pulou, e uma sensação de vertigem se apoderou de mim como costumava acontecer na minha infância, quando em qualquer viagem de carro eu me sentia mal. Apoiei a cabeça de lado na moldura da janela, contra o vento, e durante um longo tempo não me atrevi a olhar ao redor. Somente quando Salò havia ficado bem para trás e nos aproximávamos de Gargnano, fui capaz de vencer o medo em meus membros e olhar para trás sobre o ombro.

Extraído de “Vertigem”, de W. G. Sebald

Mais vendidos, 02 de Novembro de 2008

Ficção

1. O Vendedor de Sonhos – Augusto Cury, R$29,00 (Ed. Academia de Inteligência)

2. A Cabana – William P. Young, R$24,90 (Ed. Sextante)

3. Lua Nova – Stephenie Meyer, R$39,90 (Ed. Intrínseca)

4. Crepúsculo – Stephenie Meyer, R$39,90 (Ed. Intrínseca)

5. O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Záfon, R$39,90 (Ed. Suma das Letras)

6. Quando Nietzsche Chorou – Irvin D. Yalom, R$49,90 (Ed. Ediouro)

7. A Menina Que Roubava Livros – Markus Zasak, R$ 39,90 (Ed. Intrínseca)

8. Ensaio Sobre A Cegueira – José Saramago, R$44,00 (Ed. Companhia das Letras)

9. Os Homens Que Não Amavam As Mulheres – Stieg Larsson, R$49,00 (Ed. Companhia das Letras)

10. O Carrasco do Amor – Irvin D. Yalom, R$34,90 (Ed. Ediouro)

 

Não-ficção

1. 1808 – Laurentino Gomes, R$39,90 (Ed. Planeta)

2. Comer, Rezar, Amar – Elizabeth Gilbert, R$39,90 (Ed. Objetiva)

3. Marley e Eu – John Grogan, R$29,90 (Ed. Ediouro)

4. Uma Breve História do Mundo – Geoffrey Blainey, R$38,50 (Ed. Fundamento)

5. Dewey, Um Gato Entre Livros – Vicki Myron, R$24,90 (Ed. Globo)

6. O País dos Petralhas – Reinaldo Azevedo, R$38,00 (Ed. Record)

7. Laowai, História de uma Repórter Brasileira na China – Sônia Bridi, R$39,90 (Ed. Letras Brasileiras)

8. O Mundo é Bárbaro – Luis Fernando Veríssimo, R$29,90 (Ed. Objetiva)

9. Resistência, A História da Mulher que Desafiou Hitler – Agnès Humbert, R$39,90 (Ed. Nova Fronteira)

10. A Alma Moral – Nilton Bonder, R$24,00 (Ed. Rocco)

 

Auto-ajuda e Negócios

1. A Arte da Guerra, Os Treza Capítulos – Sun Tzu, R$34,90 (Ed. Jardim dos Livros)

2. A Lição Final – Randy Pausch, R$34,90 (Ed. Agir)

3. Eles Continuam Entre Nós – Zibia Gasparetto, R$22,00 (Ed. Vida e Consciência)

4. O Segredo – Rhonda Byrne, R$39,90 (Ed. Ediouro)

5. Investimentos Inteligentes – Gustavo Cerbasi, R$34,90 (Ed. Thomas Nelson)

6. A Lei da Atração – Michael Losier, R$19,90 (Ed. Nova Fronteira)

7. O Monge e o Executivo – James Hunter, R$19,90 (Ed. Sextante)

8. Nunca Desista De Seus Sonhos – Augusto Cury, R$19,90 (Ed. Sextante)

9. Casais Inteligente Enriquecem Juntos – Gustavo Cerbasi, R$30,00 (Ed. Gente)

10. Os Segredos da Mente Milionária – T. Harv Eker, R$19,90 (Ed. Sextante)

 

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Ruiz Záfon retorna aos mistérios de Barcelona

“O Jogo do Anjo” retoma cenário do Cemintério dos Livros Esquecidos de “A Sombra do Vento”.

 

O Jogo do Anjo

O Jogo do Anjo

 

 

Ler um romance é como passar férias no cérebro do autor”, diz Záfon, sobre sua relação com o protagonista, que também é um escritor.

Por Eduardo Simões
Da REPORTAGEM LOCAL

O espanhol Carlos Ruiz Záfon prefere não encarar seu novo romance, “O Jogo do Anjo”, como mera continuação do best-seller “A Sombra do Vento”, que só no Brasil vendeu cerca de 150 mil cópias. “Ambos fazem partes de um cicl de romances independentes, mas conectados através do mesmo universo literário”, diz à Folha o autor, que no novo livro retoma o cenário do Cemitério dos Livros Esquecidos e pretende fazer uma tetralogia. Leia abaixo trechos da entrevista:

 FOLHA – “O Jogo do Anjo” foi publicado após sete de “silêncio” e do sucesso de “A Sombra do Vento”. O sr. se sentiu pressionado para ter um novo romance de sucesso?

Carlos Ruiz Záfon – Na verdade, não. “O Jogo do Anjo” é o sexo romance que publico e, talvez por isso, a experiência de muitos anos no ofício me permita a perspectiva e a distância para não confundir as coisas ou deixar-me condicionar demais pelas expectativas. No fim das contas, cada livro é um novo desafio e se começa do zero sem saber aonde se vai chegar.

FOLHA – “O Jogo do Anjo” faz parte de uma tetralogia?

Záfon – Ambos fazem parte de um ciclo de romances independentes, mas conectados através do mesmo universo literário. O coração deste mundo é o Cemitério dos Livros Esquecidos e a Barcelona misteriosa que conhecemos em “A Sombra do Vento”. As diferenças são de tom, perspectiva e construção. “O Jogo” é mais sombrio, mais gótico e complexo e “joga” ao implicar o leitor no processo narrativo, convidando-o a interpretar a trama e a fazer parte da resolução da história.

FOLHA – Seu personagem principal é um escritor. Em que medida o sr. buscou ou evitou espelhar-se aí?

Záfon – Todos os personagens que um escritor cria têm algo de si mesmo, não somente o protagonista ou aqueles que se parecem com ele são um espelho. Há muito de mim em meus livros. Mas não somente nos personagens e sim, sobretudo, em sua construção, no modo como são escritos e narrados em seu universo. Ler um romace é como passar férias no cérebro de seu autor.

FOLHA – O “New York Times” disse que sua obra é uma mistura de Uberto Eco, García Márquez e Borges. O sr. concorda com a descrição?

Záfon – Não estabeleço comparações nem estou especialmente interessado nelas. Minhas influências vêm de todas as partes, de tudo o que li. Não faço distinção de língua, raça, nacionalidade ou credo. A literatura não tem passaportes.

 

Crítica: Best-seller divide opiniões e cria “zafonadictos”

Por Moacyr Scliar

A carreira do escritor espanhol Carlos Ruiz Záfon (Barcelona, 1964) é, para dizer o mínimo, meteórica. Começou como premiado autor de obras juvenis, mas, em 2001, deu o grande salto com o romance “A Sombra do Vento”, que, traduzido em 30 idiomas e publicado em 45 países, vendeu milhões de exemplares, recebendo prêmios e transformando o autor num best-seller internacional – na Espanha, fala-se em “zafonadictos”, fãs incondicionais do escritor.

Sete anos depois, Záfon nos dá um segundo romance. “O Jogo do Anjo”, que já está repetindo o êxito, e que nos permite entender um pouco aquilo que poderíamos chamar de anatomia do best-seller.

A história, que tem como cenário a sempre fascinante cidade de Barcelona no começo do século XX, começa de maneira relativamente simples: David Martín, filho de um veterano de guerra violento e desesperado e de uma mãe com quem não tem contato, é um jovem que trabalha em um medíocre jornal.

Trama de sucesso

Mas aí vê-se diante da situação descrita no parágrafo inicial do romance: “Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história”.

É contratado por uma editora para escrever, sob pseudônimo, uma série de publicações que acabam alcançando grande êxito.

Então, recebe uma nova oferta, desta vez de um misterioso editor de Paris, Andreas Corelli: trata-se de produzir, mediante fabuloso pagamento, um livro que será uma espécie de bíblia para uma nova religião a ser fundada.

A partir daí a ação se acelera, entra num ritmo vertiginoso, e as mais rocambolescas aventuras se sucedem, predendo a atenção do leitor de forma irresistível.

O fantástico, lembrando um pouco García Márquez, ou mesmo Borges, comparece por meio de um misterioso lugar chamado a Cemitério dos Livros Esquecidos; ali, Martín encontra uma antiga obra escrita por alguém que tem algo em comum com ele próprio, e que o jovem escritor trata de achar, enquanto luta com a dor de um desengano amoroso.

Mas o livro é mais um thriller, com mortes se sucedendo em cenários sombrios (cemitérios, mansões em ruínas), o que gera um clima de paranóico pesadelo: de fato, David só pode confiar em seu amigo, o livreiro Sempere, e em Isabella, uma espécie de discípula literária.

Diz o “New York Times”: “Ruiz Záfon nos apresenta um elenco de selvagens e cativantes histórias e personagens”. Ou seja: nada de monólogos interiores, nada de longas reflexões sobre a condição humana e o sentido da existência, ainda que frases espirituosas (o humor do autor é outro apelo à leitura) pontilhem a narrativa.

Os diálogos, aliás, são vivos e, ágeis e há cenas cinematográficas, como aquela da morte de Cristina: rompe-se o gelo sobre o qual caminha descalça, ela cai na água, o gelo fecha-se sobre ela e por ali David martín a vê morrer. Falando em cinema: Záfon trabalha como roteirista em Los Angeles, onde vive desde 1993 com a esposa.

Críticos torceram o nariz para este livro e, de fato, um apreciador de Proust não gostará muito dele. Portanto, se perguntarmos se o livro é bom, obteremos respostas discordantes. Mas se perguntarmos se o autor faz bem aquilo que se propõe a fazer, a resposta será afirmativa.

Um livro de ação, bem narrado, agrada a muita gente. Os “zafonadictos” que o digam.

 

“O Jogo do Anjo”
Autor:
 Carlos Ruiz Záfon
Editora: Suma das Letras
Quanto: R$39,00
Avaliação: Bom 

“Último Round” e “A Volta ao Dia em 80 Mundos” de Júlio Cortázar são lançados aqui no Brasil

DANIEL BENEVIDES
Colaboração para o UOL

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Capa do de “Último Round”, de Julio Cortázar, inédito no Brasil
LEIA TRECHOS DOS LIVROS

Os muitos cultuadores da obra do argentino Julio Cortázar têm motivos de sobra para comemorar. A editora Civilização Brasileira está lançando dois livros seus que, por um desses mistérios insondáveis do mercado editorial, permaneciam inéditos no Brasil. E melhor: está lançando tal como planejado pelo autor, em formato de bolso, com várias fotos e ilustrações entre os textos.

“A Volta ao Dia em 80 Mundos” (1967) e “Último Round” (1969), ambos em dois volumes e em tudo complementares, poderiam ser classificados como almanaques surrealistas ou diários de viagens para armar, ou qualquer coisa próximo disso. Mas na verdade são livros inclassificáveis, que misturam memórias, artigos, poemas, contos curtos, ensaios, recortes de notícias e um sem-número de diversões literárias. Vargas Llosa definiu bem: “(são) misturas alquímicas (…) nas quais (ele) revelou suas afeições, manias, obsessões, simpatias e fobias com um alegre impudor adolescente.”

Leia trechos dos livros

Os assuntos variam como as notas de um músico de jazz. Aliás, como já foi observado por muitos, o texto de Cortázar lembra bastante o fraseado de um saxofone ou mesmo de um trompete (o qual ele tocava), com seus períodos ora longos, ora curtos, de imagens e visões surpreendentes, que surgem como variações melódicas.

Não à toa, alguns jazzmen são tema de suas anotações. Músicos como Charlie Parker, Lester Young, Thelonious Monk e Clifford Brown aparecem como fantasmas cintilantes, iluminando as páginas com o poder da evocação e sendo iluminados pelas poéticas observações do fã Júlio. Sobre Louis Armstrong, escreve: “quando Louis canta, a ordem estabelecida das coisas pára.” O compatriota Carlos Gardel também recebe uma bela homenagem.

Dos dois, “A Volta ao Dia em 80 Mundos” é o melhor, no qual Cortázar se coloca mais abertamente, falando de seu processo criativo (“escrevo por incapacidade, por descolocação”), de sua infância, em que sonhava com as aventuras de Júlio Verne (cujo espírito permeia, de alguma maneira, todos os textos aqui compilados), e de seus livros, especialmente o clássico contemporâneo “O Jogo da Amarelinha”, que considera a versão filosófica dos seus contos. Sobre esse livro aliás, cuja estrutura de capítulos avulsos está reproduzida nesse “A Volta Ao Dia…”, há um texto curioso, em que descreve uma máquina idealizada para “ler” “O Jogo da Amarelinha”.

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Capa de “A Volta ao Dia em 80 Mundos”, de Julio Cortázar, inédito no Brasil
LEIA TRECHOS DOS LIVROS
Mas é no posicionamento anárquico contra a seriedade e a falta de humor dos críticos literários e pessoas em geral, que Cortázar vai mais fundo. No caleidoscópico ensaio sobre Lezama Lima, um dos muitos “cronópios” de que fala a todo momento (em oposição aos “famas”), Cortázar defende o barroquismo hermético do autor de Paradiso (1966) contra a empáfia do senso comum (que se detém em questões superficiais e não enxerga a poesia sob a casca das coisas).

“Último Round” também se filia ao lúdico e onírico contra a burocracia dos sentidos. Em textos sobre o erotismo de Sade e Battaille, sobre Marcel Duchamp ou Salvador Dalí, Cortázar se coloca sempre do lado libertário, acima de ideologias. Mas era, como ele mesmo dizia, um homem de esquerda, um “vermelho”. A estimulante colagem de slogans, textos e reminiscências de maio de 68, bem no meio de “Último Round”, deixa isso bem claro.

Também chama a atenção o texto em que reclama da velocidade das novas tecnologias, diante das quais as pessoas perderam a capacidade de se maravilhar. Não deixa de ser curioso, já que esses dois livros são, em essência, pré-blogs impressos. O que leva à pergunta: como Cortázar, morto em 1984, encararia a revolução da Internet? Tudo leva a crer que ele estaria na ponta.

Encontre os dois últimos lançamentos de Júlio Cortázar, “Último Round” e “A Volta ao Dia em 80 Mundos” aqui na Livraria Nobel Perdizes!

“A VOLTA AO DIA EM 80 MUNDOS”
Autor: Julio Cortázar
Tradução: Ari Roitman
Editora: Civilização Brasileira
Preço: R$ 29 (Tomo 1) e R$ 29 (Tomo 2)

“ÚLTIMO ROUND”
Autor: Julio Cortázar
Tradução: Ari Roitman
Editora: Civilização Brasileira
Preço: R$ 30 (Tomo 1) e R$ 30 (Tomo 2)