Reprodução

Capa de “O Dom”, da escritora Nikita Lalwani, sobre uma garota indiana considerada superdotada, educada sob rígida disciplina

LEIA TRECHO DE “O DOM”

Garota superdotada é personagem central em “O Dom”, livro da escritora Nikita Lalwani

Leitor que se preze sabe que um bom livro não se mede pelo que se conta, mas sim como se conta. À primeira vista, os conflitos de uma pré-adolescente nascida e criada no País de Gales, mas educada sob rígidos preceitos indianos parece um enredo batido demais. São os mesmos velhos dilemas Oriente versus Ocidente, que já tanto rendeu à literatura mundial.

Sendo assim, o que justifica o sucesso de “O Dom”, da estreante Nikita Lalwani, de cara indicado ao Man Booker Prize de melhor ficção em 2007? Resposta mais que óbvia: o livro é muito bem escrito. Certamente uma das melhores surpresas do ano, entre as novidades literárias de língua inglesa, lançadas em português (tradução de Fernanda Abreu, publicado pela Nova Fronteira).

O enredo tem algumas camadas, das quais vale destacar duas. É a história das pressões a que Rumika Vasi, uma garota considerada superdotada em matemática, enfrenta para justificar seu dom. Sob orientação dos pais, ela segue um rígido programa de estudos para entrar em Oxford com apenas 15 anos. Num plano mais abrangente, “O Dom” é a história de uma família dividida entre manter-se fiel aos preceitos de vida indianos e adaptar-se aos hábitos ocidentais, assimilando o modo de vida inglês. Mahesh, o pai, joga xadrez no pub, mas não aceita que a filha use jeans.

Rumi, a filha adolescente, é uma completa deslocada. Em casa, não vê sentido nos valores defendidos pelos pais. Na rua, não consegue fugir de estereótipo de CDF amalucada, absolutamente fora dos padrões de sua época. Contraditória, a garota é uma obcecada por números e cálculos que se deixa levar pelos devaneios de obras literárias. É justo quando está submetida a uma rotina rigorosa de estudos que Rumi começa a descobrir as possibilidades da vida. Sua genialidade não a impede de sonhar, como qualquer adolescente, com o príncipe encantado para salvá-la da vida sem graça com um romântico beijo.

A Índia aparece no livro de uma forma muito sentimental. Rumi , que se enxerga muito mais inglesa do que indiana, não resiste aos mistérios daquele país nas raras visitas que faz, em férias familiares. Os sons, os cheiros, as cores e principalmente as crenças da Índia causam um estado de encantamento na garota. Sua formação lógica não resiste ao encontro com a deusa Mansadevi, capaz de adivinhar (e realizar) um desejo guardado na mente.

Parece claro que Nikita Lalwani buscou em suas próprias memórias a bagagem necessária para a construção do enredo. A autora nasceu no Rajastão, Índia, e foi criada em Cardiff, País de Gales, mesma cidade de sua personagem Rumika. Sem dúvida, a intimidade entre criador e criatura torna a história muito mais instigante. Mas, definitivamente, o livro não seria o mesmo sem o trabalho de construção narrativa de Nikita.

A escritora se vale de um narrador onipresente, que tanto pode ler o pensamento de Rumi, como da mãe Shreene ou do pai Mahesh. O que não torna esse um romance psicológico. Há um investimento grande nas descrições físicas, com desenhos muito claros dos ambientes em que os personagens circulam. Um texto simples, coeso, sem excessos, e muito bem amarrado. Coisa boa e rara de se ver numa obra de estréia.


“O Dom”
Autora:
Nikita Lalwani
Editora: Nova Fronteira
326 páginas
Preço sugerido: R$ 35

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Obra marca a história da crítica de arte

FABIO CYPRIANO
DA REPORTAGEM LOCAL

Como uma imensa nuvem que turva a visão em dias ensolarados, a crítica formalista de Clement Greenberg (1909-1994) praticamente determinou os parâmetros para a observação da arte em grande parte da segunda metade do século 20.
Sua força foi tamanha que mesmo outras possibilidades de análise tiveram de partir desse ponto de vista, para então negá-lo, como é o caso do crítico Leo Steinberg e seu ensaio “Outros Critérios”.
O texto, publicado pela primeira vez em 1972, na revista norte-americana “Artforum”, dá título agora a uma coletânea lançada no Brasil pela editora Cosac&Naify.
O atraso para a chegada de Steinberg ao Brasil, apesar de o texto “Outros Critérios” ter sido publicado em “Clement Greenberg e o Debate Crítico” (Jorge Zahar, 208 págs.), organizado por Glória Ferreira e Cecília Cotrin, em 1997, possivelmente ocorreu pelo fato de o próprio Greenberg ter tido aqui menos alcance.
Foi posto em segundo plano por Mário Pedrosa (1901-1991), crítico nada formalista, precursor do conceito de pós-moderno, que diminuiu entre nós a necessidade de Steinberg, ao menos na década de 70.

Vigor renovado
Isso não retira a importância da publicação, visto que o formalismo, favorável à autonomia da arte, defendida Greenberg, acabou se fortalecendo no pensamento artístico nacional, levando as idéias de Steinberg a ganhar mais vigor no contexto atual.
O autor -que nasceu em 1920, em Moscou, mas desde o fim da Segunda Guerra Mundial vive nos Estados Unidos- rebelou-se contra um dos pilares do pensamento greenberguiano, que é a crítica como uma lente de princípios sólidos e imutáveis.
Escreve Steinberg em “Outros Critérios”: “O crítico interessado numa nova manifestação mantém afastados seus critérios e seu gosto. Uma vez que foram formulados com base na arte anterior, ele não presume que sejam adequados para a arte de hoje. Enquanto busca compreender os objetivos subjacentes à nova arte produzida, nada é excluído ou julgado irrelevante a priori”.
A estocada aí é manifesta, já que todo o pensamento de Greenberg está baseado na filosofia kantiana.
Em outro momento, o golpe é mais profundo, investindo contra a noção de Greenberg, que escreve que é só no modernismo que a arte realiza auto-análise: “Toda arte de importância, pelo menos desde os Trezentos, preocupa-se com a autocrítica. A arte é sempre sobre arte, sejam quais forem suas outras preocupações”.
Em outros ensaios, Steinberg exercita, então, os seus critérios, analisando artistas essencialmente modernos, como Picasso e Rodin, nomes da cena norte-americana, como Jasper Johns e Robert Rauschenberg, ou o grande motivo de Greenberg: Jackson Pollock.
No conjunto, eles representam um manifesto de um período específico, fundamental para abrir uma nova forma de crítica na história da arte.

OUTROS CRITÉRIOS
Autor: Leo Steinberg
Tradução: Célia Euvaldo
Editora: Cosac Naify
Quanto: R$ 79 (464 págs.)
Avaliação: bom

Fonte: Folha de São Paulo Online

Livro analisa processos contra cadete que matou Euclides da Cunha e foi absolvido

SÉRGIO SALOMÃO SHECAIRA
ESPECIAL PARA A FOLHA

O livro de Luiza Nagib Eluf sobre Euclides da Cunha tenta traçar um perfil histórico, jurídico e comportamental do início do século 20. Narra, fundamentalmente, a essência da vida conflituosa entre o consagrado autor de “Os Sertões” e sua mulher, Anna Emília Ribeiro (depois Anna de Assis), no triângulo amoroso formado com o cadete da Escola Militar, Dilermando de Assis.
A inovação da abordagem se dá pela análise detalhada dos autos dos processos a que Dilermando respondeu, em que se invocou o instituto da legítima defesa, razão acolhida para se absolver o acusado nas três vezes em que foi a julgamento.
Diferentemente do alentado depoimento concedido pela filha de Anna de Assis (Judith Ribeiro de Assis) a Jeferson de Andrade (“Anna de Assis – História de um Trágico Amor”; Codecri/Pasquim, 1987), o livro de Luiza Eluf não centra seu foco na análise da vida cotidiana dos envolvidos na tragédia. Ela descreve sucintamente o episódio, para centrar a abordagem nos processos que envolveram Dilermando de Assis.
A tragédia do consagrado escritor é mais ou menos conhecida de todos. Ao descobrir que sua mulher, Anna, envolvera-se com outro homem, resolve matá-lo. Embora tenha atirado em Dilermando primeiro, Euclides da Cunha não acerta seu alvo de forma precisa, permitindo a reação em legítima defesa, vindo a falecer. Anos mais tarde, um de seus filhos tenta vingar a sua morte. Novamente em legítima defesa, Dilermando mata seu agressor.
No entanto, aquilo que a autora tentou destacar como o ponto mais interessante de sua abordagem, no bem-ilustrado e bonito livro que lança, acaba sendo seu ponto mais deficiente: a análise jurídica do caso.
São citados somente três autores, um dos quais é um livro preparatório para concursos públicos. Alguns julgados citados sobre legítima defesa datam de 50 anos. O mais novo deles é dos anos 80.
O primeiro julgamento a que foi submetido Dilermando, no Distrito Federal, deu-se em maio de 1911. Eram 12 jurados, e o resultado foi um empate: 6 a 6. Restou o réu, pois, absolvido.
Desde o Código do Processo Criminal de Primeira Instância de 1832 (artigo 259), já se estabelecia que o procedimento de júri, à semelhança do norte-americano, teria esse número de jurados.
O julgamento foi posteriormente anulado, vindo Dilermando a ser submetido a novo júri em 1914, quando vigia o Código Estadual de 20/12/1912. A existência dos Códigos Estaduais foi autorizada pela Constituição de 1891, quando se outorgou aos Estados a competência para legislar sobre Processo Civil e Penal.
Assim, já no segundo julgamento, eram sete somente os jurados, não podendo haver empates nos quesitos votados.
Também não se deu devida atenção a toda discussão jurídica sobre os homicidas passionais, que remonta à escola positiva italiana.
Além disso, todas as conclusões principais sobre a vida dos envolvidos têm por base o livro-depoimento da filha de Anna de Assis.
É, evidentemente, uma visão de uma parte envolvida. E, se o objetivo é analisar a versão jurídica dada ao caso, outras fontes deveriam ser citadas. Não por outra razão é que na conclusão assevera-se que Anna “não cometeu nenhum ato reprovável ao se apaixonar por Dilermando” (pág. 137), mas somente Euclides é quem errou!

SÉRGIO SALOMÃO SHECAIRA é professor titular de direito penal da USP

MATAR OU MORRER – O CASO EUCLIDES DA CUNHA
Autor: Luiza Nagib Eluf
Editora: Saraiva
Quanto: R$ 49 (168 págs.)
Avaliação: regular

Mais vendidos, 02 de Novembro de 2008

Ficção

1. O Vendedor de Sonhos – Augusto Cury, R$29,00 (Ed. Academia de Inteligência)

2. A Cabana – William P. Young, R$24,90 (Ed. Sextante)

3. Lua Nova – Stephenie Meyer, R$39,90 (Ed. Intrínseca)

4. Crepúsculo – Stephenie Meyer, R$39,90 (Ed. Intrínseca)

5. O Jogo do Anjo – Carlos Ruiz Záfon, R$39,90 (Ed. Suma das Letras)

6. Quando Nietzsche Chorou – Irvin D. Yalom, R$49,90 (Ed. Ediouro)

7. A Menina Que Roubava Livros – Markus Zasak, R$ 39,90 (Ed. Intrínseca)

8. Ensaio Sobre A Cegueira – José Saramago, R$44,00 (Ed. Companhia das Letras)

9. Os Homens Que Não Amavam As Mulheres – Stieg Larsson, R$49,00 (Ed. Companhia das Letras)

10. O Carrasco do Amor – Irvin D. Yalom, R$34,90 (Ed. Ediouro)

 

Não-ficção

1. 1808 – Laurentino Gomes, R$39,90 (Ed. Planeta)

2. Comer, Rezar, Amar – Elizabeth Gilbert, R$39,90 (Ed. Objetiva)

3. Marley e Eu – John Grogan, R$29,90 (Ed. Ediouro)

4. Uma Breve História do Mundo – Geoffrey Blainey, R$38,50 (Ed. Fundamento)

5. Dewey, Um Gato Entre Livros – Vicki Myron, R$24,90 (Ed. Globo)

6. O País dos Petralhas – Reinaldo Azevedo, R$38,00 (Ed. Record)

7. Laowai, História de uma Repórter Brasileira na China – Sônia Bridi, R$39,90 (Ed. Letras Brasileiras)

8. O Mundo é Bárbaro – Luis Fernando Veríssimo, R$29,90 (Ed. Objetiva)

9. Resistência, A História da Mulher que Desafiou Hitler – Agnès Humbert, R$39,90 (Ed. Nova Fronteira)

10. A Alma Moral – Nilton Bonder, R$24,00 (Ed. Rocco)

 

Auto-ajuda e Negócios

1. A Arte da Guerra, Os Treza Capítulos – Sun Tzu, R$34,90 (Ed. Jardim dos Livros)

2. A Lição Final – Randy Pausch, R$34,90 (Ed. Agir)

3. Eles Continuam Entre Nós – Zibia Gasparetto, R$22,00 (Ed. Vida e Consciência)

4. O Segredo – Rhonda Byrne, R$39,90 (Ed. Ediouro)

5. Investimentos Inteligentes – Gustavo Cerbasi, R$34,90 (Ed. Thomas Nelson)

6. A Lei da Atração – Michael Losier, R$19,90 (Ed. Nova Fronteira)

7. O Monge e o Executivo – James Hunter, R$19,90 (Ed. Sextante)

8. Nunca Desista De Seus Sonhos – Augusto Cury, R$19,90 (Ed. Sextante)

9. Casais Inteligente Enriquecem Juntos – Gustavo Cerbasi, R$30,00 (Ed. Gente)

10. Os Segredos da Mente Milionária – T. Harv Eker, R$19,90 (Ed. Sextante)

 

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Ruiz Záfon retorna aos mistérios de Barcelona

“O Jogo do Anjo” retoma cenário do Cemintério dos Livros Esquecidos de “A Sombra do Vento”.

 

O Jogo do Anjo

O Jogo do Anjo

 

 

Ler um romance é como passar férias no cérebro do autor”, diz Záfon, sobre sua relação com o protagonista, que também é um escritor.

Por Eduardo Simões
Da REPORTAGEM LOCAL

O espanhol Carlos Ruiz Záfon prefere não encarar seu novo romance, “O Jogo do Anjo”, como mera continuação do best-seller “A Sombra do Vento”, que só no Brasil vendeu cerca de 150 mil cópias. “Ambos fazem partes de um cicl de romances independentes, mas conectados através do mesmo universo literário”, diz à Folha o autor, que no novo livro retoma o cenário do Cemitério dos Livros Esquecidos e pretende fazer uma tetralogia. Leia abaixo trechos da entrevista:

 FOLHA – “O Jogo do Anjo” foi publicado após sete de “silêncio” e do sucesso de “A Sombra do Vento”. O sr. se sentiu pressionado para ter um novo romance de sucesso?

Carlos Ruiz Záfon – Na verdade, não. “O Jogo do Anjo” é o sexo romance que publico e, talvez por isso, a experiência de muitos anos no ofício me permita a perspectiva e a distância para não confundir as coisas ou deixar-me condicionar demais pelas expectativas. No fim das contas, cada livro é um novo desafio e se começa do zero sem saber aonde se vai chegar.

FOLHA – “O Jogo do Anjo” faz parte de uma tetralogia?

Záfon – Ambos fazem parte de um ciclo de romances independentes, mas conectados através do mesmo universo literário. O coração deste mundo é o Cemitério dos Livros Esquecidos e a Barcelona misteriosa que conhecemos em “A Sombra do Vento”. As diferenças são de tom, perspectiva e construção. “O Jogo” é mais sombrio, mais gótico e complexo e “joga” ao implicar o leitor no processo narrativo, convidando-o a interpretar a trama e a fazer parte da resolução da história.

FOLHA – Seu personagem principal é um escritor. Em que medida o sr. buscou ou evitou espelhar-se aí?

Záfon – Todos os personagens que um escritor cria têm algo de si mesmo, não somente o protagonista ou aqueles que se parecem com ele são um espelho. Há muito de mim em meus livros. Mas não somente nos personagens e sim, sobretudo, em sua construção, no modo como são escritos e narrados em seu universo. Ler um romace é como passar férias no cérebro de seu autor.

FOLHA – O “New York Times” disse que sua obra é uma mistura de Uberto Eco, García Márquez e Borges. O sr. concorda com a descrição?

Záfon – Não estabeleço comparações nem estou especialmente interessado nelas. Minhas influências vêm de todas as partes, de tudo o que li. Não faço distinção de língua, raça, nacionalidade ou credo. A literatura não tem passaportes.

 

Crítica: Best-seller divide opiniões e cria “zafonadictos”

Por Moacyr Scliar

A carreira do escritor espanhol Carlos Ruiz Záfon (Barcelona, 1964) é, para dizer o mínimo, meteórica. Começou como premiado autor de obras juvenis, mas, em 2001, deu o grande salto com o romance “A Sombra do Vento”, que, traduzido em 30 idiomas e publicado em 45 países, vendeu milhões de exemplares, recebendo prêmios e transformando o autor num best-seller internacional – na Espanha, fala-se em “zafonadictos”, fãs incondicionais do escritor.

Sete anos depois, Záfon nos dá um segundo romance. “O Jogo do Anjo”, que já está repetindo o êxito, e que nos permite entender um pouco aquilo que poderíamos chamar de anatomia do best-seller.

A história, que tem como cenário a sempre fascinante cidade de Barcelona no começo do século XX, começa de maneira relativamente simples: David Martín, filho de um veterano de guerra violento e desesperado e de uma mãe com quem não tem contato, é um jovem que trabalha em um medíocre jornal.

Trama de sucesso

Mas aí vê-se diante da situação descrita no parágrafo inicial do romance: “Um escritor nunca esquece a primeira vez em que aceita algumas moedas ou um elogio em troca de uma história”.

É contratado por uma editora para escrever, sob pseudônimo, uma série de publicações que acabam alcançando grande êxito.

Então, recebe uma nova oferta, desta vez de um misterioso editor de Paris, Andreas Corelli: trata-se de produzir, mediante fabuloso pagamento, um livro que será uma espécie de bíblia para uma nova religião a ser fundada.

A partir daí a ação se acelera, entra num ritmo vertiginoso, e as mais rocambolescas aventuras se sucedem, predendo a atenção do leitor de forma irresistível.

O fantástico, lembrando um pouco García Márquez, ou mesmo Borges, comparece por meio de um misterioso lugar chamado a Cemitério dos Livros Esquecidos; ali, Martín encontra uma antiga obra escrita por alguém que tem algo em comum com ele próprio, e que o jovem escritor trata de achar, enquanto luta com a dor de um desengano amoroso.

Mas o livro é mais um thriller, com mortes se sucedendo em cenários sombrios (cemitérios, mansões em ruínas), o que gera um clima de paranóico pesadelo: de fato, David só pode confiar em seu amigo, o livreiro Sempere, e em Isabella, uma espécie de discípula literária.

Diz o “New York Times”: “Ruiz Záfon nos apresenta um elenco de selvagens e cativantes histórias e personagens”. Ou seja: nada de monólogos interiores, nada de longas reflexões sobre a condição humana e o sentido da existência, ainda que frases espirituosas (o humor do autor é outro apelo à leitura) pontilhem a narrativa.

Os diálogos, aliás, são vivos e, ágeis e há cenas cinematográficas, como aquela da morte de Cristina: rompe-se o gelo sobre o qual caminha descalça, ela cai na água, o gelo fecha-se sobre ela e por ali David martín a vê morrer. Falando em cinema: Záfon trabalha como roteirista em Los Angeles, onde vive desde 1993 com a esposa.

Críticos torceram o nariz para este livro e, de fato, um apreciador de Proust não gostará muito dele. Portanto, se perguntarmos se o livro é bom, obteremos respostas discordantes. Mas se perguntarmos se o autor faz bem aquilo que se propõe a fazer, a resposta será afirmativa.

Um livro de ação, bem narrado, agrada a muita gente. Os “zafonadictos” que o digam.

 

“O Jogo do Anjo”
Autor:
 Carlos Ruiz Záfon
Editora: Suma das Letras
Quanto: R$39,00
Avaliação: Bom 

 

Livro “Nada” mostra realidade dura da Espanha nos anos 1940

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Divulgação

“Nada” narra um ano na vida de Andrea, que muda-se para Barcelona após a morte de seus pais
LEIA TRECHO DE “NADA”, DE CARMEN LAFORET

Carmen Laforet é tida como uma das grandes escritoras espanholas do pós-guerra. E deve isso a “Nada”, seu primeiro romance, festejado como obra-prima apenas dois anos após sua publicação, em 1942, e que acaba de ganhar versão em português pela editora Alfaguara (tradução de Rubia Prates Goldoni). Escrito quando a autora tinha apenas 23 anos, o livro é o retrato de uma Espanha de terceiro mundo, sem ser uma obra cansativamente descritiva ou de tom político. Camen consegue envolver o leitor na dura realidade espanhola do início dos anos 1940 pelas angustias de Andrea, a mocinha provinciana recém-chegada a Barcelona.

Aos 18 anos, é fácil imaginar que o mundo conspira contra. Para Andrea, não faltam motivos. Órfã, ela passa a morar de favor na casa da avó, convivendo com uma família enlouquecida e opressora e, até o dia de sua chegada, completamente desconhecida. A narrativa acompanha o primeiro ano da garota na cidade grande. Nada são flores. Ela atravessa um rigoroso inverno e um verão abafado sentindo a vertigem da fome, da tristeza e da sensação de deslocamento.

No apartamento empoeirado da rua Aribau não há espaço para ingênuas lembranças, nem sonhos de juventude. Andrea logo entende que ali precisa amadurecer rápido, sob pena de perder a sanidade. A saída é manter uma distância psicológica, já que a física é impossível, dos moradores da casa: a tia Angustias, cheia de mistérios e disposta a controlar a sobrinha; o tio Juan, um artista frustrado que vive às tapas com a mulher Gloria; o tio Román, cuja maior diversão é tirar do sério quem estiver por perto; Antonia, a empregada feia e turrona; e mesmo a frágil e débil avó, incapaz de pôr ordem na família.

Fora de casa, Andrea é uma garota de poucas palavras que precisa lidar com outros tipos de problema, como sua falta de tato para as relações pessoais e o dinheiro curto. De uma maneira muito direta, uma coisa influencia a outra. Num país de moral apática e dominado pelo provincianismo, é preciso disfarçar bem os sapatos velhos para ser enxergado em meio à burguesia. A Barcelona de Carmen Laforet é um enorme refúgio de amargurados, onde mesmo os que se propõem serem rebeldes não fogem da caricatura.

Nesse ambiente, Andrea conhece Ena, colega do curso de Letras que consegue ser seu exato oposto. Ena é rica, bonita e vive cercada de pessoas interessantes. A relação das duas é um sopro de alegria na tristonha vida de Andrea, até que a amiga bonitona se deixa levar pelos galanteios de Ramón, o tio meio pervertido, meio sádico. Andrea ainda ensaia uma vida boêmia se aproximando de uma turma de pseudo-artistas moderninhos. Mas nada parece suficiente para Andrea, que enxerga como ninguém as distorções nas relações humanas ao seu redor.

“Nada” é um livro inquietante na medida em que todos os personagens parecem viver fora da realidade, enclausurados nas suas próprias insanidades. Amor e sexo são vistos por uma lente de aumento pela interiorana meio deslumbrada com a cidade grande. O título não poderia ser mais adequado. É no nada, ou nas palavras não ditas, que está o encantamento da narrativa.


“Nada”
Autor:
Carmen Laforet
Tradução: Rubia Prates Goldoni
Editora: Alfaguara/Objetiva
Preço: R$ 40,00

 

A Índia pelos olhos de típicos norte-americanos em “A Suíte Elefanta”, de Paul Theroux

MARTA BARBOSA
Colaboração para o UOL

Capa de “A Suíte Elefanta”, de Paul Theroux, livro que reúne três histórias de norte-americanos típicos que vencem a fronteira invisível que separa suas vidas burguesas do mundo real da Índia
LEIA AS PRIMEIRAS PÁGINAS DO LIVRO

“A Índia era o mais próximo da vida e da morte que se podia chegar na Terra. Mas não era uma coisa ou outra: ali havia vida na morte e morte na vida”, diz o narrador de “A Suíte Elefanta”, lançamento da editora Alfaguara (tradução de Fernanda Abreu). É nesse país de contrastes que circulam as personagens de Paulo Theroux nas três novelas reunidas no livro, todas com enredos mais ou menos relacionados.

Nas três histórias, norte-americanos típicos vencem a fronteira invisível que separa suas vidas burguesas do mundo real quando desembarcam na distante Índia. Razões diversas os levam até aquele país. O casal busca descanso para o corpo e alívio para a alma; o executivo fareja oportunidades de ganhar mais dinheiro; a garota quer paz e um tanto de aventura para sua vidinha sem graça. Os conflitos começam quando eles percebem que não conseguirão abstrair o que enxergam pela janela: um país caótico, sujo e com uma lógica pelo avesso.

Theroux, que ganhou notabilidade com relatos de viagem, prova seu talento para as novelas com uma narração descritiva e bem ambientada. O texto flui mesmo quando o que está em foco são lugares-comuns, a exemplo da já batida perplexidade dos ocidentais diante do modo de vida indiano.

Texto que abre o livro, “Colina dos Macacos” é um bom exemplo desse bom uso do óbvio. Audie e Beth Blunden são ricos, bem-casados e se sentem espiritualmente num nível mais elevado em relação aos seus pares da burguesia americana. Afinal, quantos milionários de seu país escolheriam o alto de uma montanha indiana para passar as férias? Só que da verdadeira Índia, eles mantêm distância. Tudo que conhecem se resume ao que viram da janela do carro no trajeto do aeroporto ao resort onde se hospedam. Protegidos pelos muros do hotel, Audie e Beth exercitam corpo e espírito, na santa paz, até que se vêem atraídos pela Índia real.

“Colina dos Macacos” é uma história de traição e descoberta. O casal perde os parâmetros do que seria uma relação estável e se deixa levar pelo desejo quando encontra amantes locais. Mais que isso, acostumados ao luxo de Manhattan, os dois se sentem tentados a quebrar a distância segura que estabelecem da verdadeira Índia. E pagam um preço caro por isso. A novela curta (tem pouco mais de 80 páginas) é instigante do começo ao fim. Aliás, o final é o ponto alto da trama.

A estreita relação existente entre dinheiro e submissão é o mote do segundo texto do livro.

Divulgação

Escritor Paul Theroux conta histórias de norte-americanos típicos que vencem a fronteira invisível que separa suas vidas burguesas do mundo real da Índia
LEIA AS PRIMEIRAS PÁGINAS DO LIVRO

Em “O Portal da Índia”, um jovem executivo de Boston faz, a contragosto, seguidas viagens de negócios à Mumbai. Como os personagens da história anterior, Dwight quer distância das ruas abarrotadas de gente, carros e animais. Se está ali, é por questões profissionais e faz questão de se comportar como tal. Limita o quanto pode sua vida à suíte elefanta, a mais cara do hotel onde está hospedado.

Isso até cruzar o portal fincado diante do edifício onde realiza suas reuniões de trabalho. Era para ser uma rápida caminhada pelos arredores, mas Dwight acaba traído pelos próprios desejos. O executivo que enchia as malas de Gatorade e atum enlatado, para assim evitar até mesmo os bons restaurantes locais, é capturado pelo lado mais obscuro da Índia: o da luxuria. É quando o americano de valores duvidosos testa até onde seu dinheiro pode comprar num país miserável.

Interessante a relação que o autor estabelece entre os textos. Em “O Portal da Índia”, por exemplo, o leitor encontra pistas sobre o paradeiro do personagem da novela anterior, “Colina dos Macacos”. Theroux usa um tempo linear, como se um episódio precedesse o outro, o que torna a narrativa ainda mais cativante.

De todos os personagens do livro, a jovem Alice, de “O Deus-Elefante”, é a mais à vontade em meio ao caos indiano. De férias após se formar na escola e deixada de lado pela amiga e companheira de viagem, Alice não se intimida em seguir só Índia adentro. Sozinha, ela pega o trem para Bangalore e se hospeda numa comunidade de meditação. Aos poucos e com facilidade, se adapta ao lugar e se enturma com os locais, passando a dar aulas de inglês. Mas nada é tão simples quando se está tão longe de casa e um terrível acontecimento vira pelo avesso a vida da garota americana.

Não espere percursos tranqüilos nos enredos de Theroux. Nas três histórias, a aparente tranqüilidade no decorrer da trama é em algum momento transformada em algo inquietante, e os finais são sempre de muito impacto. Talvez aqui esteja o segredo da narrativa: nada termina como se espera.


“A SUÍTE ELEFANTA”
Autor:
Paul Theroux
Editora: Alfaguara
Preço: R$ 45,00