PLÍNIO FRAGA
da Folha de S.Paulo, no Rio

Ter dinheiro sem ter boa cabeça é o caminho mais curto para a deselegância. O que está muito na moda está fora de moda. Criticar evita o infarto. A alta-costura não existe mais. Uma mulher requintada é discreta, magra e não usa salto alto. No máximo um saltinho.

Ouvir frases como essas –na contramão da obviedade e na esquina da maledicência bem-humorada– eram privilégios dos poucos amigos que Danuza Leão cultua, ainda mais se entrecortadas pela delícia de estar numa bodega em Sevilha, num bistrô em Paris ou numa tratoria em Roma.

O novo livro da colunista da Folha Danuza Leão, “Fazendo as Malas”, pode parecer uma simples reunião de dicas de turismo. É possível embarcar nesse roteiro prosaico com bastante deleite, acompanhando-a por quatro cidades européias.

Mas os relatos de Danuza permitem uma viagem mais profunda, numa análise de como o consumo das idéias, valores e produtos pelos anônimos se transforma em história. Ou, ao menos, em boas histórias.

Danuza começa afirmando que suas malas de viagens são proporcionais aos seus critérios. “Devo confessar que meus critérios são sempre exagerados”, diz, logo nas primeiras páginas. Mas os critérios dela são argutos e estão longe do politicamente correto. Leves como não podem ser suas malas.

O livro foi escrito a partir de uma viagem a Sevilha que Danuza tinha programado para março deste ano. Após uma conversa com o editor Luiz Schwarcz, que já havia publicado sua autobiografia, “Quase Tudo” (mais de 170 mil exemplares vendidos), ela esticou até Lisboa, Paris e Roma. De posse de um bloquinho, anotou quase tudo o que comeu, bebeu, conversou e viveu.

Ao voltar ao Brasil, debruçou-se para concluir uma obra que mescla programas de viagens e uma penca de observações e confissões saborosas. “Já fui bem consumista, mas melhorei muito, até porque o que vejo não me dá mais a taquicardia que dava quando, por exemplo, eu deparava com um vestido deslumbrante”, assume ela.

Combate chavões ao citar que, em qualquer lugar do mundo, pede-se um copo de vinho ou champanha –“un verre de vin”, “a glass of wine”. “Só no Brasil existe o hábito de pedir uma taça de vinho, ou uma tacinha, pior ainda.”

Ao relatar um passeio com uma amiga, justifica a ida ao café mais próximo para “criticar os horrores” das vitrines, exercício que afirma evitar a possibilidade de ataques do coração.

Comemora o fracasso alheio, em nome do bom gosto: “Aquele restaurante de Nova York e Los Angeles, o Nobu, pretensioso até mais não poder, abriu em Paris e fechou, por não ter feito nenhum sucesso. Deus existe e, às vezes, é justo. A-do-rei”. Não perdoa a celebrização dos chefs. “Tenho o péssimo hábito de gostar de ser muito bem recebida onde quer que eu vá, e a vaidade dos novos chefs me deixa petrificada. Por quem se tomam eles? Por Deus?”

Ao se deparar num restaurante italiano com Lee Radziwill, a irmã de Jacqueline Onassis, destila a arte feminina de medir com os olhos. “Claro que olhei muito para ela (disfarçadamente), e refleti sobre o que faz uma mulher ser elegante. Elas se vestem sempre de maneira bastante discreta, e é raro usarem cores fortes.”

Matemática Chanel

Danuza diz que mulheres elegantes devem estar atentas a uma lei matemática de madame Chanel: se a mulher é pequena, não deve usar salto alto; simples questão de proporção.

Ex-modelo nos anos 50, Danuza desdenha do mundinho fashion. “A moda mudou. Adeus à alta-costura, adeus aos vestidos que embelezam as mulheres. O que existe hoje deveria ter outro nome, diferente de ‘moda’, pois essa terminou quando Givenchy, Valentino, Saint Laurent saíram do palco. Agora é outra coisa, em algumas ocasiões até divertida.”

No livro, a ex-fumante Danuza expõe outros vícios: “Como toda mulher que se preza, sou louca por sapatos e botas”. Em Paris, neste ano, viu-se próximo de quebrar suas regras ao “quase desmaiar” quando se deparou com uma linda sandália salto 12. Teve de comprá-la.

“Quando voltei ao Rio, vi que jamais usaria a sandália, até porque, como perdi o hábito, não sei mais me equilibrar em cima de saltos. Mas rapidamente soube o que fazer: ela foi para a estante, onde posso vê-la o tempo todo (e lembrar das minhas loucuras).”

De perto ninguém é normal nem santo, prova Danuza ao narrar incidente em Roma. “Ia atravessando a rua –o sinal estava verde para mim e eu acreditei– quando veio um carro, passou o sinal vermelho e quase me atropelou. Sabe quem estava ao volante? Um padre. Será que isso não é pecado?”

FAZENDO AS MALAS
Autora: Danuza Leão
Editora: Companhia das Letras
Quanto: R$ 35

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QUEM ERA MARIA MADALENA?
Maria Madalena é a prostituta mais conhecida da história. Mas pergunta-se, quem era mesmo Maria Madalena?
Todas as incertezas a respeito de Maria Madalena deve-se a uma projeção totalmente alterada. Ela acabou presa entre as a interjeição moral cristã e a imagem típica da natureza feminina erótica.

Existem poucas citações diretas sobre ela nos quatro evangelhos, porém ela está nominalmente presente nas passagens mais marcantes na vida do Cristo, como a Paixão e a Ressurreição. Ela é a discípula que ama o mestre acima de tudo e é testemunha da Sua Ressurreição, sendo a portadora da Boa Nova. Por isso ela pode ser considerada a primeira apóstola. Entretanto, em outras fontes que não as Escrituras cristãs, já encontramos uma imagem bem diferente de Madalena e sua função. Nos Evangelhos Gnósticos ela é vista como líder ativa no discipulado de Cristo. Talvez fosse até, uma professora dos apóstolos. O gnóstico “Evangelho de Felipe” relata “a união do homem e da mulher como símbolo da cura e paz, e estende-se ao relacionamento de Cristo e Madalena que, diz ele, era freqüentemente beijada por ele”. Ele descreve Maria Madalena como “a companhia mais íntima de Jesus, e símbolo da Sabedoria Divina”.

De acordo com o “Diálogo do Salvador”, Maria Madalena foi uma dos três discípulos a receber ensinamentos especiais, e era elogiada acima de Mateus e Tomé. Dizia-se que “ela falava como mulher que conhecia o Todo”.
Mas, a atenção especial que recebia Maria Madalena, acabou gerando rivalidade entre ela e os outros discípulos. Em “Pists Sophia”, há algo a respeito de Pedro irritando-se porque Maria Madalena dominava a conversa com Jesus. Ela parecia entender tudo o que Cristo falava, enquanto os outros, não tinham tanto alcance.Pedro em função disso, temia perder sua posição de liderança na nova comunidade religiosa. Ele exige que Jesus a silencie e é imediatamente censurado. Mais tarde, Maria admite a Jesus que não ousa falar a ele livremente porque, segundo suas palavras: “Pedro faz-me hesitar; tenho medo dele porque ele odeia a raça feminina”. Jesus responde que quem quer que o espírito tenha inspirado é divinamente ordenado a falar, seja homem ou mulher.

No “Evangelho de Maria”, há uma passagem que os discípulos abatidos com a crucificação, pedem para Maria Madalena que os animassem, contando-lhes coisas que Jesus dissera e ela em particular. Ela fala então, de sua visão de Cristo e o que ele tinha revelado a ela. Todos duvidaram e a rechaçaram.
Nos “Evangelhos Gnósticos”, Maria Madalena é considerada uma mulher capaz, ativa, amorosa, com habilidades de conhecer e falar “o Todo”, o que talvez seja uma referência à mais alta Sabedoria, certa compreensão que o coração recebe e contém. Maria Madalena possuía a habilidade de saber das coisas inexplicáveis, como sua visão de Cristo. Ela não questionava este seu lado, como os outros. Ela confiava em sua fonte mais íntima. Ela conseguia ver os emissários divinos e transmitir suas mensagens aos humanos. Como prostituta sagrada, ela era mediadora entre o mundo divino e o mundo dos humanos.

Desde o início da Idade Média, Santa Maria Madalena tem fervorosa devoção, principalmente na Europa, de todos os destituídos, prostituídos, pecadores e despossuídos, que estão em busca de um verdadeiro arrependimento. Várias instituições foram criadas levando o seu nome, para o acompanhamento e orientação, principalmente, de mulheres vítimas da prostituição.
Diz a lenda, que após a volta do Cristo para junto de Seu Pai, Maria Madalena partiu em busca do isolamento, passando o resto de sua vida em penitência e adoração ao Cristo, habitando em uma gruta. Como não se alimentava, anjos vinham constantemente em seu socorro, até que veio a falecer e sua alma foi levada por um cortejo de anjos, para o céu, junto ao seu Salvador.

Ela teria ido até Marselha, na França, e depois a Burgundy, vivendo em uma gruta em Ste, Baume. Lá ela teria vivido até o fim de sua vida, quando foi assistida em seu leito de morte pelo bispo Maximinus, que lhe deu a extrema unção e a enterrou.
Maria Madalena como vemos, continua sendo uma figura proeminente na tradição cristã por uma razão psicológica. A dimensão arquetípica da natureza feminina erótica elege uma figura para ser a portadora de sua projeção. A repressão da sexualidade pelo pai cristão manipulou a imagem de maneira que Maria Madalena fosse vista como penitente, renunciando à sua sexualidade.

Diferentemente do homem antigo, cujo amor pelo erótico era considerado compatível com a espiritualidade, esses líderes cristãos negaram exatamente o necessário para a renovação da vida.
A imagem da deusa divina que personifica os aspectos risonhos, radiantes, sábios, independentes e sensuais da natureza feminina existe desde que se tem registros históricos. E pode continuar a existir em nosso tempo se permitirmos que a sua imagem seja restabelecida e que tome seu lugar de direito na compreensão consciente.

FONTE:  NET SABER

Divulgação

“A Menina de Cá”, de Carlos Nascimento Silva
LEIA TRECHO DE “A MENINA DE CÁ”
Mistérios em torno de um casal em crise, os poderes femininos e o homem diante da insuperável frustração de um amor perdido. Tudo isso e algo mais compõem o enredo do livro “A Menina de Cá”, de Carlos Nascimento Silva (lançamento da editora Agir). São 20 narrativas curtas que remontam o início de carreira do autor mineiro, 72 anos, dois Prêmios Jabuti no currículo. Mais conhecido por seus romances, Nascimento Silva iniciou-se como escritor com contos – agora, pela primeira vez, reunidos em livro.

Leia trecho de “A Menina de Cá”

Ironia e um apetite especial para as ações que não se explicam com racionalidade parecem pontos comuns entre os textos. Mas se existe uma temática geral entre os enredos, essa é a mulher. É o poder do feminino, seja numa relação de casal, seja em comunhão com a natureza, que o autor aborda em suas histórias, algumas abertamente influenciadas pela obra de outro mineiro ilustre, João Guimarães Rosa.

As aproximações de “A Menina de Cá” com a obra Roseana começam pelo título do livro, parafraseado de “A Menina de Lá”, conto publicado em “Primeiras Estórias” (de 1962). No texto de Guimarães Rosa, a menina Maria, conhecida como Nhinhinha, primeiro é dada como tola para logo se revelar milagreira. Já a menina de Nascimento Silva, no conto que dá nome ao livro, é Nhanhã – uma garotinha esquisita, que se difere dos irmãos pelos hábitos estranhos que cultiva como o de se divertir deitando-se no solo, “levantando o vestidinho até a cintura e recebendo o calor da terra na barriga, nas coxas”. Seu dom não é propriamente dos milagres, e sim o de estabelecer uma relação de comunhão com a natureza. O final surpreendente do conto deixa até o mais yuppie com uma pontinha de vontade de ser telúrico.

Outros quatro dos contos de Carlos Nascimento Silva são oferecidos ao autor de “Grande Sertão: Veredas”. Além de uma apaixonada dedicatória que antecede os textos, coisa de fã mesmo, “À moda de Guimarães”, “Depois, além…”, “Coisas” e “Confiteos” recuperam e modernizam elementos muito próprios de Guimarães Rosa. Um deles é sonoridade. Na mesma linha do mestre, Nascimento Silva tece sua narrativa como uma música, em que não apenas a forma, mas principalmente o som das palavras se torna essencial. Um convite à leitura em voz alta, como uma poesia.

Outro ponto de diálogo entre os dois autores é o apreço pelo primitivo como tema. Em “A Menina de Cá”, o homem é repetidas vezes apresentado como vítima da sua própria agressividade. Age como se não houvesse alternativa a não ser aceitar-se como um ser brutal e capaz de atrocidades motivadas pelo instinto.

Destaque ainda para a trilogia “Beléleu”, “O Outro” e “Queijo Suíço”. Nesses contos, um mesmo casal atravessa crises matrimoniais cercado de mistérios. O desaparecimento de objetos de uso doméstico de dentro de casa, sem pistas de quem ou o que pode ser a causa, ou o eco de uma voz masculina que interfere nos diálogos íntimos são estopins para crises devastadoras. Diante do inexplicável, o relacionamento antes duradouro parece frágil como papel. E não resiste a falta de lógica.

O autor
Carlos Nascimento Silva nasceu em Varginha, cidade do interior de Minas Gerais. Figura entre os nomes da chamada atual literatura brasileira que valem a pena ter na estante. Sua estréia se deu como romancista em 1995, com o lançamento de “A Casa da Palma”. Vendeu mais de 10 mil exemplares – um número relevante em se tratando de uma estréia no mercado nacional. Com esse livro, ele recebeu o prêmio da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). “A Casa de Palma” ganhou as prateleiras da Alemanha, traduzido com o título “Das Palmenhaus”.

Os títulos mais conhecidos de Nascimento Silva, no entanto, são “Cabra-cega” (1999) e “Desengano” (2007), dois ganhadores do Prêmio Jabuti. Em “Cabra-cega”, o autor apresenta a vida de quatro personagens, com histórias paralelas e aparentemente independentes, passadas no Brasil e nos Estados Unidos, e suas experiências de vida nas últimas quatro décadas do milênio. Nascimento Silva utiliza o enredo para questionar o processo de produção literária.

Já em “Desengano”, o autor se vale do realismo. No Rio de Janeiro dos anos 1950, uma tragédia familiar se anuncia quando Júlia, uma viúva balzaquiana, seduz Alberto, 17 anos, amigo do seu filho. Pedofilia, relações sadomasoquistas e incestos compõem a temática nua e crua do último romance lançado pelo autor.


“A MENINA DE CÁ”
Autor: Carlos Nascimento Silva
Editora: Agir
Preço: R$ 34,90

“CABRA-CEGA”
Autor: Carlos Nascimento Silva
Editora: Relume Dumará
Preço: R$ 36

“DESENGANO”
Autor: Carlos Nascimento Silva
Editora: Agir
Preço: R$ 30