Biografia


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Capa do livro “Conversas Com Woody Allen”, de Eric Lax
VEJA FOTOS DO LIVRO
LEIA TRECHO DE “CONVERSAS COM WOODY ALLEN”
Mais europeu dos cineastas americanos, Woody Allen continua sendo uma exceção. Não se enquadra no sistema industrial dos Estados Unidos, embora realize religiosamente um filme por ano. E também não pode ser comparado aos “independentes”, já que sua estética, seus temas preferidos e suas idéias não se enquadram nesse “formato”.

Rotular Allen como o “único autor remanescente no cinema americano” seria uma saída fácil demais para explicar o porque ele é singular. O jornalista Eric Lax, biógrafo do cineasta, escreveu um livro só para isso. “Conversas com Woody Allen” (Cosac & Naify) reúne entrevistas feitas por Lax com o diretor ao longo de 36 anos. O escritor as desmembrou para depois reorganizá-las cronolgicamente dentro de capítulos temáticos que percorrem todo o processo criativo do biografado.

Lax esmiuça com Allen desde a gênese das idéias até a elaboração da trilha sonora dos filmes, sem esquecer de dar-lhe voz para fazer uma avaliação de sua própria carreira. Talvez nesse ponto Lax peque pela reverência excessiva, a falta de distanciamento crítico do personagem, algo em que não está sozinho nesse setor do mundo literário.

Cita-se indistintamente filmes como “Manhattan”, “Noivo Neurótico, Noiva Nervosa”, “Interiores”, “Setembro” e “Scoop” sem estabelecer um diferencial entre eles que não seja puramente formal. Allen, sempre muito autocrítico, como seus personagens, ajuda nesse sentido. Mas com a austera convicção de que ou “era jovem demais” ou “induziram-lhe ao erro”.

Pode-se não gostar de Woody Allen ou tomar os seus melhores filmes por obras superestimadas, mas não se pode negar que sua trajetória revela uma evolução gradual e sem paralelo possível. De cineasta intuitivo que costurava gags visuais em comédias como “Bananas”, “O Dorminhoco” e “Tudo Que Você Queria Saber Sobre Sexo Mas Tinha Medo de Perguntar” até diretor experiente e sofisticado de dramas como “Crimes e Pecados” e “Ponto Final”.

Mais do que elucidar e organizar o método de Allen, o livro mostra como o habilidoso humorista se tornou um dos mais argutos críticos da Era da ansiedade. É um livro de referência sobre um único cineasta, o que não o isenta de defeitos, como os citados acima e a falta de uma filmografia completa. Esta última ajudaria bastante o leitor não-iniciado.

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Mulheres é um livro referência de Charles Bukowski, escritor americano – 1920/1994. Nasceu na Alemanha, mas foi para os EUA com três anos de idade.

É considerado o autor contemporâneo mais influente e imitado na América. Conhecido como escritor alcoólico, Bukowski foi mesmo um desconstrutor do sonho americano. Seus poemas tem força, muitas vezes confundidos como “sujos”, mas basta ler alguns para sentir a força poética, delicada, da incrível forma requintada como expõe a condição humana.

Me levou quinze anos para humanizar a poesia mas será preciso mais do que eu para humanizar a humanidade.

Mulheres é um livro alter ego do escritor, pois seu personagem Henry Chinaski é ígualmente alcoólico, viciado em mulheres e em corrida de cavalos; e escritor também, portanto se quiser saber desse fenômeno que antecedeu os beatniks, é só ler.

Seus livros são procurados por jovens que querem saber como lidar com a melancólica situação de ser humano, sem precisar lidar com subterfúgios hipócritas.

Mulheres - Charles Bukowski

Tem mais de cinquenta livros, inéditos em sua maior parte, um verdadeiro tesouro oculto. Inclusive, para quem estiver interessado, há um belo livro seu de poemas, publicado pela Spectro Editora, Hino da Tormenta e mais quatro que a editora ficou de publicar no Brasil. Preciso conferir porque são imperdíveis. Fonte de inspiração para quem escreve ou quer apenas compreender melhor a vida que nos cerca através de belíssimos poemas.

Charles Bukovski bebeu até morrer mas morreu com idade surpreendente a julgar por sua total falta de escrúpulo com a saúde. Para ele só importavam a literatura, as mulheres, os cavalos e seus inseparáveis drin’ks.

Mas, como disse no início, é até hoje o escritor americano de maior referência, o que significa que, para o bem da humanidade leitora e escritora, herdamos a eternidade de um poeta paradoxalmente lírico, contundente, sujo, mas absolutamente requintado com as palavras.

Trecho do livro Mulheres

Katherine ficou mais uns quatro ou cinco dias. Já estava no seu período fértil do mês e era arriscado trepar. Eu detestava camisinha. Ela comprou uma espuma anticoncepcional. Nesse meio tempo a polícia achou meu fusca… Mandei rebocá-lo até uma oficina de HollyWood…

– Aposto que você conhece um monte de mulher – disse Hilda – A gente leu seus livros.

– Eu escrevo ficção.

– Que ficção?

– Ficção é a vida melhorada.

– Quer dizer que você mente? – perguntou Gertrude.

– Um pouco. Não muito.

– Você tem namorada? – perguntou Hilda.

– Não. Agora não.

– A gente vai ficar – disse Gertrude.

– Só tem uma cama.

– Tudo bem.

– Só mais uma coisa…

– Eu é que vou dormir no meio…

 

Fonte: Lendo

Adriana Calcanhotto descobre a prosa ao narrar seu surto psicótico em Portugal; mas a canção, ela diz, “ainda resolve melhor”

Livro sobre o episódio, “Saga Lusa”, em que a escrita serviu como antídoto para efeitos medicamentosos, sai até o fim deste mês

 

A cantora Adriana Calcanhotto, que lança neste mês o livro “Saga Lusa”, sobre surto em Portugal, no Real Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro

RAFAEL CARIELLO
DA REPORTAGEM LOCAL

“Surto psicótico induzido por medicação. Não há o que fazer. Você tem que esperar passar”, disse o médico.
Durante uma turnê em Portugal, em maio deste ano, a cantora Adriana Calcanhotto recebeu o diagnóstico, por telefone, de seu clínico no Brasil.
Tinha saído do país já com uma gripe forte, e avalia que a cortisona que usa há 12 anos para um problema glandular -sozinha ou interagindo com os outros medicamentos para o mal-estar- tenha disparado um período de delírio e pânico, em que viveu as piores sensações de sua vida e teve medo de não voltar a controlar as próprias emoções e pensamentos.
“Estava na cara que não tinha antídoto”, ela diz. Químico, ao menos. Mesmo antes do “surto”, a cantora já havia feito algo “que não era exatamente” do seu “estilo”. Em resposta a um amigo, escrevera um e-mail longuíssimo, em que falava sobre suas primeiras impressões de Lisboa. “Eu sou uma pessoa educada. Não escrevo e-mails massudos daquele jeito, nem para os amigos íntimos.”
Quando as cores de tons inéditos que davam medo, o delírio de estar fora do corpo, a “coisa” que teimava em levar sua mente para as piores lembranças, medos e tristezas se manifestaram, ela continuou a escrever, sem parar.
O resultado, uma narrativa desses dias em Portugal, entre a viagem de ida e a de volta -do seu país e de si mesma-, recebe de Calcanhotto e de seu psiquiatra o crédito de ter servido para salvá-la. Virou livro -mais “auto-ajuda” impossível, brinca a cantora. “Saga Lusa” será publicado até o fim deste mês pela estreante editora Cobogó, criada pela cineasta e fotógrafa Isabel Diegues e pelo arquiteto e crítico Ricardo Sardenberg.
“Eu consegui me manter separada da “coisa”, escrevendo. Assim eu me sentia com menos medo. Não toquei violão, por exemplo, que estava no quarto o tempo todo”, ela diz.
“Escrever foi a única coisa que restou. Porque, quanto mais eu pensasse no futuro -quanto tempo vai ser, se vai passar-, com a pressão de cancelar entrevistas e shows, a escrita era o que me mantinha no presente, era o que eu intuí que seria a coisa mais sábia a fazer, para não ficar pensando naquilo”, conta Calcanhotto.
O fato de estar em Portugal também contou, segundo ela. O país “encarna” sua paixão pela literatura, sobretudo pela poesia, e não há como viajar para lá sem se dar conta da língua, das diferenças de linguagem entre os dois países, sem dar atenção para as palavras e seus efeitos.
O “ambiente”, portanto, também pode ter contribuído para a vontade de escrever, afirma a cantora.

Retorno à prosa
Entre a ida e a vinda, uma coisa, ao menos, mudou. Calcanhotto diz que havia deixado a prosa de lado, em favor da leitura de poesia, ainda nova, na adolescência.
Tinha a sensação de perda de tempo (em que poderia descobrir novos poetas e versos) nas páginas de romances.
Fora redação de colégio, nem se arriscava na prosa -e diz que não sentia necessidade nem desejo de escrever. Depois de sua “Saga Lusa”, voltou a ler romances e contos, e tem escrito crônicas.
Numa passagem do livro, de certa forma exorcizando a vaidade e a ambição, Calcanhotto imagina abandonar a profissão de cantora -afinal, menciona, está aí a crise do disco, das gravadoras etc.- e se tornar escritora profissional. Mais: membro da Academia Brasileira de Letras. Mas não só: presidente da ABL.
“Minhas ambições com essa obra são de vulto”, ela brinca.
“Vulto não, que ultimamente me dá medo. Minhas ambições são de porte. E, por falar em porte, vou começar hoje mesmo uma dieta. Pra caber em um fardão bordado a ouro, que pedirei à menina [e estilista] Gilda Midani pra me ajudar a incrementar, deixar mais largadão, confortável.”
A publicação desse trabalho de “auto-ajuda”, de toda forma, tem menos a ver com a vaidade de escrever do que com a conclusão de seu tratamento “literário”. “Não teria uma sensação de total sobrevivência se eu colocasse esse livro na gaveta. É publicando que eu sobrevivo de fato”, diz.
Apesar da redescoberta da prosa -e da possibilidade de uma futura carreira como escritora-, Calcanhotto segue fiel à canção. No camarim, pouco antes do seu primeiro show após a crise, lembra-se de uma música que, segundo ela, também foi importante para “resolver” aquela situação.
“Lembrei que se diz que para cada sentimento humano, para cada mais sutil sensação, para qualquer situação possível nesta vida, já há uma música correspondente no cancioneiro brasileiro”, escreve. Cantou em seguida, para a platéia da cidade do Porto, “Meu Mundo e Nada Mais”, de Guilherme Arantes. Para quem havia passado cinco dias sem dormir e temia perder o controle das próprias idéias e emoções, parecia fazer sentido dizer “eu queria tanto estar no escuro do meu quarto” e “daria tudo por meu mundo e nada mais”.
Livro e canção tentam, portanto, fazer a mesma coisa: dar conta de uma sensação, de um estado de espírito, resolvê-lo, botar ordem no mundo e fazer a vida seguir adiante. Fica inevitável a comparação.
“As canções resolvem melhor, resolvem tudo melhor; a canção é superior”, diz Calcanhotto. “Acho que eu vou perder a minha vaga na Academia, com essa frase.”


SAGA LUSA
Autor: Adriana Calcanhotto
Editora: Cobogó
Quanto: preço a definir (168 págs.)

Catarse da vergonha
MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

“RESISTÊNCIA”, DIÁRIO da francesa Agnès Humbert, que viveu na clandestinidade durante a ocupação nazista, traz a seguinte questão: por que certas experiências exigem novas formas de expressão, a ponto de criarem um novo gênero ou subgênero literário?
Num célebre ensaio intitulado “Semiótica dos Conceitos de Vergonha e Medo”, Iuri Lotman descreveu a dinâmica do nosso comportamento pela alternância entre dois impulsos.
O medo definiria a reação do indivíduo a um elemento externo, a grupos cujas normas lhe são estranhas e ameaçadoras. Já a vergonha definiria a relação interna de um grupo no qual a violação das regras compartilhadas desencadeia o temor da exclusão. Lotman não quis com isso esgotar a gama das relações intersubjetivas.
O fato, porém, é que em situações extremas esse binômio passa a definir a cultura de uma época, a ponto de criar formas de simbolizar tais sentimentos.
É o caso do terror e da culpa que marcaram a experiência de quem -como Agnès Humbert- viveu a Segunda Guerra Mundial.
O horror da destruição total, representada pelos campos de extermínio, acabou criando um tipo de relato conhecido como “literatura de testemunho”, como as memórias de Primo Levi e Elie Wiesel. Na França, país até hoje constrangido pelo passado “colaboracionista”, surgiu outra tradição narrativa: os relatos da Resistência, daquela minoria que se rebelou e sobreviveu para fazer a catarse coletiva.
“Resistência” se insere nesse subgênero, em que as convenções do registro confessional se invertem: em vez de mostrar a vergonha daquele que confessa sentimentos que o apartam da coletividade, o relato do resistente tenta provar que ele possui uma sanidade exemplar, oculta na vergonha coletiva.
Historiadora de arte em Paris, Agnès Humbert começou a redigir seus diários quando a invasão alemã era iminente, interrompendo-os em 1941, ao ser presa por envolvimento no grupo resistente liderado por Boris Vildé. Após a guerra, retomou o trabalho de reconstituição que resultou no livro, cujo título brasileiro remete ao jornal que ela editava na clandestinidade.
O terror do cárcere (incluindo a comovente cena em que seus companheiros escutam impávidos a sentença de morte) ocupa boa parte do livro. Mas os trechos mais significativos correspondem aos meses que precedem a prisão e ao momento em que, após a Libertação, ela se empenha na caça aos nazistas.
Pois, enquanto luta contra os carrascos, ela antevê o embate com outro inimigo, mais insidioso: os “camaleões” morais que, passado o pesadelo, continuam morando na casa ao lado.

RESISTÊNCIA
Autora: Agnès Humbert
Tradução: Regina Lyra
Editora: Nova Fronteira
Quanto: R$ 39,90 (344 págs.)
Avaliação: bom

 

Fonte

Romance
Os Versos Satânicos
SALMAN RUSHDIE
Editora: Companhia das Letras; Tradução: Misael Dursan; Quanto: R$ 28,50 (600 págs.)
SOBRE O AUTOR: Nasceu na Índia, em 1947, numa família muçulmana rica e liberal. Aos 13, foi estudar na Inglaterra, e lá permaneceu, tendo se tornado súdito britânico. Formou-se em história no King’s College, em Cambridge. Já ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário britânico.
TEMA: Romance alegórico sobre choques culturais no mundo contemporâneo. Dois indianos “caem do céu”, incólumes, no Reino Unido, depois que terroristas explodem o avião em que viajavam
POR QUE LER: O livro trouxe a Rushdie prêmios, reconhecimento inédito, em escala mundial, e uma sentença de morte, promulgada pelo aiatolá Khomeini.

Romance
Em Caso de Felicidade

DAVID FOENKINOS
Editora: Rocco; Tradução: Bernardo Ajzenberg; Quanto: R$ 34 (184 págs.)
SOBRE O AUTOR: Nascido em 1974, e formado em letras pela Universidade de Paris – Sorbonne, é um dos novos nomes da literatura francesa
TEMA: História de um casal que chega à crise conjugal depois de oito anos juntos e, após período de separação, resolve tentar a reconciliação. Para reforço de certa caricatura francesa, o narrador teme a possibilidade de uma felicidade que o solape, e se questiona sobre quem o protegerá de tal “ameaça”.
POR QUE LER: Para conhecer um jovem e competente autor que teve seu primeiro romance publicado, aos 27 anos, pela prestigiosa editora Gallimard.

NÃO-FICÇÃO

Crônica
Hora da Guerra

JORGE AMADO
Editora: Companhia das Letras; Quanto: R$ 47 (296 págs.)
SOBRE O AUTOR: Um dos mais importantes autores brasileiros do século 20, foi membro da Academia Brasileira de Letras e se elegeu deputado federal pelo PCB em 1946.
TEMA: “Hora da Guerra” era o nome da coluna publicada por Jorge Amado em jornal da Bahia entre 1942 e 1945. As crônicas reunidas neste volume tratam sobretudo da Segunda Guerra, mas também há artigos sobre assuntos literários e comportamentais da época.
POR QUE LER: A publicação desses textos de “intervenção” em livro é inédita, e ganha importância por pertencerem a um autor para quem política e literatura nunca foram atividades estanques.

Antropologia
Metáforas Históricas e Realidades Míticas

MARSHALL SAHLINS
Editora: Zahar; Tradução: Fraya Frehse; Quanto: R$ 34 (160 págs.)
SOBRE O AUTOR: Um dos mais importantes cientistas sociais em atividade, é professor emérito de antropologia da Universidade de Chicago.
TEMA: A chegada do conquistador britânico James Cook ao Havaí, no final do séc. 18, serve para o autor fazer seus primeiros desenvolvimentos de uma teoria da prática humana, que tenta explicar como sistemas simbólicos são transformados ao serem utilizados em contextos históricos específicos.
POR QUE LER: Para conhecer fundamentos empíricos e teóricos da obra de Sahlins, que seria desenvolvida em outros livros e ensaios.

História
A Construção do Pacaembu

JOÃO FERNANDO FERREIRA
Editora: Paz e Terra; Quanto: R$ 24 (116 págs.)
SOBRE O AUTOR: Mestre em história pela Unesp, é professor e coordenador do curso de história da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul.
TEMA: Investiga a história da construção do Pacaembu, iniciada em 1936 e concluída em 1940, durante o Estado Novo de Getúlio Vargas. O estádio foi realizado quando São Paulo havia perdido poder político nacional, mas se firmava como centro econômico do país.
POR QUE LER: Para entender o símbolo paulista, quase contemporâneo à criação da USP, que buscava “mostrar ao resto do país” o suposto e pretendido papel de “locomotiva do progresso”.

Filosofia
Mutações – Ensaios Sobre as Novas Configurações do Mundo

ADAUTO NOVAES (organizador)
Editora: SescSP e Agir; Quanto: R$ 59,90 (462 págs.)
SOBRE O ORGANIZADOR: Jornalista, vem realizando, desde os anos 80, ciclos de conferências em que reúne os mais importantes intelectuais brasileiros para discutirem em profundidade temas fundamentais para a compreensão do mundo contemporâneo.
TEMA: Resultado de mais um dos ciclos de Novaes, a obra reúne textos de pensadores de diversas áreas sobre a transitoriedade, a fugacidade de todos os esquemas de compreensão do mundo.
POR QUE LER: A obra reúne alguns dos principais intelectuais contemporâneos brasileiros.

 

Fonte

DANIELA FERNANDES
De Paris para a BBC Brasil

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“Michelangelo – La Dotta Mano” (“Michelangelo – A Mão Sábia”) custa 100 mil euros (R$ 265 mil)

A primeira tiragem do livro contemporâneo mais caro do mundo, “Michelangelo – La Dotta Mano” (“Michelangelo – A Mão Sábia”, em tradução literal), que custa 100 mil euros (R$ 265 mil), se esgotou cerca de um mês após seu lançamento. Os 33 exemplares foram vendidos a colecionadores particulares europeus e americanos.

Outros 33 livros da edição – que será limitada a 99 exemplares – já estão sendo fabricados. Cada unidade leva entre três e seis meses para ser produzida em razão do processo artesanal que resgata as técnicas utilizadas na época do Renascimento italiano.

Publicado pela editora italiana FMR, por ocasião dos 500 anos do início do trabalho de Michelangelo nos afrescos da Capela Sistina, no Vaticano, o livro sobre a vida e obra do artista pesa 24 quilos.

A capa do livro contém uma réplica em mármore da escultura “Madonna della Scala”, uma das primeiras obras de Michelangelo, realizada quando ele ainda era adolescente. A reprodução da escultura foi realizada com mármore do tipo carrara proveniente da mesma pedreira, Il Polvaccio, onde Michelangelo costumava adquirir o material para suas obras.

O veludo de seda que cobre a capa é confeccionado em teares antigos, capazes de produzir apenas oito centímetros de tecido por dia. O luxuoso papel, em puro algodão, é produzido à mão, fibra por fibra. A encadernação também é toda feita à mão e costurada página por página.

Obra de arte
A presidente da FMR, Marilena Ferrari, afirma que os livros da coleção Book Wonderful representam uma maneira de reagir à ameaça de desaparecimento do livro impresso, causada pela internet.

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A capa do livro contém uma réplica em mármore de uma escultura de Michelangelo

Considerado uma verdadeira obra de arte, o livro reúne 45 gravuras de desenhos e documentos do artista italiano, além de 83 fotos originais das esculturas de Michelangelo feitas pelo fotógrafo Aurelio Amendola.

O texto foi escrito por um amigo de Michelangelo, o pintor e arquiteto italiano Giorgio Vasari, do século 16, conhecido por suas biografias de artistas italianos.

Outros 33 exemplares serão destinados a museus do mundo todo, como o Prado, em Madri, que já recebeu a obra. Vários ateliês de artistas e artesãos trabalharam na realização do livro, entre especialistas em encadernação, impressão gráfica, caligrafia, fotolitogravuras, entre outros.

Mais projetos
“Michelangelo – La Dotta Mano” é o primeiro livro da coleção Book Wonderful, da FMR. O segundo, sobre o escultor italiano Canova, será lançado em janeiro próximo. Um outro, sobre a rainha francesa de origem italiana Catarina de Médicis, será totalmente escrito à mão e terá apenas cinco exemplares, que não serão vendidos.

Para o projeto do livro sobre Catarina de Médicis, a FMR precisou criar escolas de caligrafias e trabalhos em miniaturas. O primeiro exemplar dessa obra deve ficar pronto no final deste ano e servirá como uma amostra do trabalho de resgate das técnicas renascentistas desenvolvido pela editora.

A presidente da FMR afirma que irá percorrer o mundo para mostrar essa obra. Segundo ela, a iniciativa tem o objetivo de “mostrar e preservar as origens da produção italiana”. Além da sede em Bolonha, na Itália, a editora possui escritórios em Paris, Madri e Nova York, onde a obra pode ser vista.

A única livraria da FMR no mundo está em Paris, na Galérie Véro-Dodat. Os livros da coleção terão garantia de 500 anos. “A composição do papel e dos demais materiais foi pensada pelos artesãos para resistir ao tempo”, diz Ferrari. O luxuoso papel não contém ácidos nem derivados de clorina, que causam a deterioração do material com o tempo.

Historiador João José Reis usa trajetória de ex-escravo africano que virou adivinho e curandeiro para mostrar complexidade do quadro social baiano no século 19

SYLVIA COLOMBO
DA REPORTAGEM LOCAL

“O historiador vive um pouco de adivinhar”, escreve João José Reis, 56, em seu mais recente trabalho, “Domingos Sodré -Um Sacerdote Africano”, que chega às livrarias na próxima segunda-feira.
Neste caso especificamente, a afirmação se aplica como uma luva. Não apenas porque a documentação sobre a escravidão no Brasil tem deficiências graves, mas porque o personagem que o historiador escolheu estudar trata-se, nada menos, de um “feiticeiro” e adivinho africano que, em meados do século 19, tornou-se uma figura notável da sociedade de Salvador.
E é por meio da trajetória deste homem, que assistiu ao auge do tráfico de escravos e da exploração do açúcar na região, aos levantes de cativos e à transformação da cidade por conta do aumento do número de negros livres que Reis analisa a complexidade daquele fervilhante quadro social.
Conseqüentemente, convida a uma reflexão sobre a escravidão que, embora não abandone a oposição entre senhores e escravos, leva em conta os papéis que negros libertos passaram a exercer ao mesmo tempo em que o medo e a repressão por parte da população branca com relação a eles aumentava.
“Faço história social do candomblé, ou seja, discuto sua interação com a sociedade. E uso Domingos como meu guia nessa missão”, explicou Reis, em entrevista à Folha.
Domingos Sodré nasceu por volta do ano de 1797, em Onim, a Lagos da atual Nigéria. Veio jovem ao Brasil, onde foi escravo de um engenho no Recôncavo. Em 1836, foi alforriado. Aos poucos, começou a ganhar fama de adivinhador e feiticeiro.
Era consultado por negros e brancos, mas foi preso por fazer trabalhos para “amansar” senhores. Comprou, ele mesmo, escravos, batizou gente e casou-se na Igreja.
Morreu com estimados 90 anos, em 1887, um ano antes da abolição da escravidão.
Se aos olhos de hoje Domingos parece um personagem do passado cheio de contradições, o que Reis faz é partir de seu retrato para mostrar como aquele momento de rearranjo de poder teve participação de diversos tipos de personagens, negros ou brancos, que exerciam vários papéis.

Pacto e negociação
A prática de feitiçaria e as reuniões relacionadas ao candomblé eram em geral reprimidas pela polícia e condenadas pela imprensa. Porém, havia muitos policiais que também usavam esses serviços. De algum modo, tornou-se um espaço de convivência e negociação entre negros e brancos, ainda que carregado de muita tensão.
O livro começa descrevendo a prisão de Domingos em julho de 1862. Sob a acusação de promover eventos relacionados ao candomblé e de reunir em sua casa objetos roubados por escravos das casas de seus senhores, o africano foi para a cadeia. Reis, então, começa a analisar como as grandes linhas do candomblé foram desenhadas na Bahia no período em que Domingos Sodré ali viveu.
O estudo segue a tônica de outros trabalhos do autor, professor da Universidade Federal da Bahia, que buscam mostrar que uma espécie de negociação entre escravos e senhores existiu concretamente e que, ainda que não suavizasse a exploração de um modo geral, garantia alguns ganhos para os explorados. Essa era a idéia essencial por trás de “Negociação e Conflito” (Companhia das Letras), escrito com Eduardo Silva.
“O conceito de negociação é usado para representar a possibilidade de barganha entre ambos.” O pesquisador usa a imagem de um chicote sempre presente, mas que não “governa” sozinho. “Uma coisa é certa: se havia situações cotidianas para negociar, o objetivo maior era sempre conseguir a alforria.”
O atual trabalho mostra como, depois de liberto, o ex-cativo tinha de continuar a se haver com a sociedade dos livres, “o que incluía o ex-senhor, mas também o político branco, o policial mestiço e por aí vai”.
Esse teria sido o caso de Domingos, que “conseguiu libertar-se de um senhor poderoso, virou ele próprio senhor de escravos e conseguiu circular com desembaraço no meio dos brancos, e com muita autoridade no meio dos negros.”
Assim, o caso mostra que, apesar de pequena, havia uma espécie de elite africana influente em Salvador. Com o devido cuidado, Reis mostra o escravo como agente histórico, mas sem, com isso, minimizar os horrores da exploração.

Fonte: Folha de São Paulo

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